Review: IRA! – IRA

por Roani Rock

Um trabalho de muito bom gosto da dupla remanescente do subestimado IRA!. Não há nada de muito novo, mas ao mesmo tempo não dá pra dizer que não é audacioso.

Roani Rock

Confira mais Rock em 2020:
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Room Experience – Another Time And Place
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Blended Brew – Shove It Down
Confess – Burn ‘Em All
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Gravadora: Ditto Music
Lançamento: 5/06/2020

Gênero: Rock
País: Brasil

Idealizado pelo guitarrista Edgar Scandurra, o 12º álbum do Ira! – o primeiro disco em 13 anos, está recheado do que há de melhor da banda. Arquitetado desde 2018 e produzido por Apollo 9, em quase 44 minutos inspirados, ressoam aos ouvidos canções de forte impacto com excelentes mensagens e uma veia de protesto bem característica.

Seguindo o exemplo de uma de suas maiores influencias, o The Who, o Ira resolveu chamar seu mais recente disco apenas de IRA, só que sem o ponto de exclamação. Tal fato é importante para realmente ver que os britânicos impactaram de verdade os paulistanos. O grupo nascido no início da década de 80 em São Paulo, que começou com o hino Pobre Paulista de 1983 sendo a ignição, agora é constituído apenas por Nasi e Edgard, com o baterista Evaristo Pádua e o baixista Johnny Boy. Talvez até por esse fator da mudança, o disco é cru e tem um destaque de 80% de Edgard Scandurra, o que está longe de ser uma coisa ruim.

A onda MOD nunca vai passar para o Ira!, é a força motriz e a capa cheia de setas. O que traz mérito a músicas como o single O Amor Também Faz Errar, a estimulante e bem trabalhada O Homem Cordial Morreu que tem até uma parte recitada por Nasi e A Torre. Por sinal, a primeira música citada é também a que inicia o álbum de forma exemplar. Segundo Nasi em entrevista ao Folha de São Paulo, foi a mais difícil de cantar.

Não há mistérios, mas o disco traz um ar diferente na discografia. Eles parecem ter arriscado mais, mesmo soando tão garagem, por sinal parece que Edgar se desafiou nas composições para recriar a sonoridade dos primórdios da banda. É cru e bonito.

Há canções de excelência, a balada A Nossa Amizade é tão singela… já a mais propensa a ser o hit do álbum, o segundo single, Mulheres a Frente da Tropa, é um deleite. Bem poderosa, com o diferencial de possuir um belo coral feminino. Nela, podemos ouvir a voz da cantora Virginie Boutaud, da saudosa banda Metrô.

Essas são as músicas sentimentais do disco, Nossa Amizade trata sobre uma relação entre duas pessoas que passaram muito tempo juntas e criaram um vínculo, parece até ser sobre o guitarrista e o vocalista. Já Mulheres a Frente da Tropa traz a voz da luta feminista sem soar como um aproveitamento de Scandurra, um cara muito ativo nas lutas sociais, vindo dele é uma inspiração e um grande elogio.

Edgar Scandurra e Nasi

No clipe da canção Marielle FrancoDandara e Preta Ferreira (representantes dos movimentos MSTCMTST e MST), a líder indígena Guarani Sônia Ana Mirim, a bailarina Sandra Miyazawa e várias outras ativistas, estudantes e artistas aparecem para enfatizar ainda mais a mensagem e o apoio do guitarrista, cantor e compositor da obra.

Elas não temem o covarde opressor
Elas não fogem do perigo da dor
Pontas de lança da revolução
Dedico à vocês essa canção
Mulheres à frente da tropa

Edgar Scandurra

Nasi parece estar em boa forma com sua voz. Ele range e grunhe da forma convencional, isso fica perceptível na faixa Você Me Toca, a mais fraca do disco e ao mesmo tempo a mais dançante. Até sua voz rouca de forma suave consegue aparecer bem na pesada balada Efeito Dominó que possui um dueto de Nasi com Scandurra e o acréscimo de backings da cantora Virgine Boutaud, contribuindo em mais uma cantando até em francês. Esse álbum traz a tona o conceito de lado A e lado B dos vinis, o que torna sua audição ainda mais especial, logo, esta faixa aparece sendo a segunda do lado B.

Chuto Pedras e Assobios é uma canção powerpop de Scandurra com Bárbara Eugenia, lembra a jovem guarda, o que é ótimo. Uma das letras mais interessantes justamente por sua simplicidade dessa onda retrô. Vejo ela rolando na cena icônica de Ringo Star solitário no filme A Hard Days Night dos Beatles.

Sempre bem acompanhado de meu eu sozinho. E não penso em mais nada, vem ficar comigo. Vai que o mundo acaba, vai que a gente some. Eu caminho pela estrada, chuto pedras e assobio.

Edgar Scandurra

Eu Desconfio De Mim e O Homem Cordial Morreu é totalmente The Jam. A inclusão de instrumentos tradicionais de música clássica dá um algo a mais brilhante pra última citada que casa lindamente com os solos. Me remeteu a faixa Got Nothing to Prove do último disco do The Who, também já comentado na matéria aqui. Já A Torre tem o solo mais Mark Knopfler de Edgar Scandurra. Excelente.

Nota Final: 8/10

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