Review: Liam Gallagher – C’mon You Know

C’mon you know representa a retomada de uma liberdade ou falsa normalidade, enquanto há guerras e destruição por objetivos mesquinhos no mundo. Liam Gallagher traz aqui um pouco de arruaça e frequências bem diferentes da que produziu ao longo dos anos, há uma vontade de acertar no erro ao testar sua voz em diferentes subgêneros e isso é louvável, mas longe de ser seu melhor trabalho.

Roani Rock

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Gravadora: 
Data de lançamento: 27/05/2022

Gênero: Pop Rock
País: Inglaterra


Todo o “culto à celebridade” fez Liam Gallagher se tornar o nome mais festejado dentre os artistas mainstream do Reino Unido. Sua presença é um impacto, e ele sabe disso. Ele é um artista populista e está sempre na mídia e redes sociais, parece inquieto e há a cada novo lançamento um entusiasmo para fortalecer sua carreira solo.

Sua imagem já havia sido salva pelo documentário As It Was, mostrando ele como um cara autoconsciente e simpático, então ele só precisava realmente seguir adiante. De lá pra cá, vieram dois bons álbuns de estúdio, um Acústico MTV (que Liam estava devendo desde os anos 90), um single natalino melancólico que quebrou os recordes de sua carreira solo e um álbum ao vivo em alto mar que também foi disponibilizado recentemente. Mas, ao fazer essa retrospectiva, não sinto que seja uma busca de afastar sua imagem do Oasis ou se afirmar como um grande interprete solo, na verdade ele só quer mandar ver e curtir o momento favorável.

O Oasis era um fenômeno sócio-musical genuíno e no coração do grupo de britpop estava, é claro, Liam Gallagher, mancuniano arrogante, implicante e carismático, um verdadeiro rock star, talvez o último que tenha levado ao pé da letra tal denominação. Ele faz questão de celebrar a obra da banda que dominou os 90’s, em seu repertório, o vocalista mescla as faixas do grupo a seu trabalho solo e tudo soa cada vez mais como parte deste universo que forjou ao lado do irmão Noel. Não a toa faz questão de manter símbolos e associações. 2022 Já está definido para ser o ano de Liam – dois shows no Knebworth esgotados atestam isso. Frente a isso, a chegada de um novo álbum caricatural é só um plus.

O contexto presente nos leva a uma queixa frente ao cara responsável por dar uma lapidada nas letras, seu fiel parceiro, o produtor Andrew Wyatt. Ele traz lucidez aos devaneios grosseiros do herói de classe operária que aparece no meio da multidão de fãs para estampar a capa do novo álbum desde As You Were. Entretanto, acredito que o produtor ao lado de Greg Kurstin perderam um pouco a mão e exageraram ao querer colocar a voz de Gallagher em diferentes direções, que até cabem no gosto pessoal do cantor, mas que faz parecer vários testes de como Liam se encaixaria se cantasse isso ou aquilo, buscando uma inovação, e terminam perdendo o poder de álbum, não há fluidez e as canções parecem ser jogadas, quase um Don’t Believe The Truth (2005).

Como sugerido pela faixa-título, Everything’s Electric e Better Days, o álbum C’MON YOU KNOW infunde os hinos clássicos e práticos de Liam com novos floreios experimentais, mas é um trabalho maluco. Andrew Wyatt é o principal produtor, enquanto Ezra Koenig contribui para uma seleção de faixas. Outros produtores/escritores como Greg Kurstin (Adele, Sir Paul McCartney), Ariel Rechtshaid (HAIM, Brandon Flowers), Adam Noble (Biffy Clyro), que são colaboradores regulares de Liam mais Michael Tighe, Simon Aldred, e membros de sua banda ao vivo, Dan McDougall (bateria) e Mike Moore (guitarra) tentam organizar tudo, as vezes deixando uma bagunça organizada, justamente por ter muitos envolvidos. Talvez aí que esteja o problema.

Os primeiros momentos do álbum já nos fazem refletir e tentar novas associações que desde o Oasis apresenta uma forma tradicional de começar os álbuns com o rosnando arrombando a porta do vocalista. Ao perceber um coral infantil em More Power, somos surpreendidos e de cara You Can’t Always Get What You Want dos Rolling Stones surge com um estalar de dedos, reaproveitando um ambiente de “Verão do Amor” tão explorado pelos principais ídolos de Liam dos anos 70. Trata-se de uma balada cativante que vai crescendo e que termina de uma forma épica principalmente com a frase “This is what you came for” recheada com solos de guitarra. O cantor em entrevistas revelou que a música é dedicada ao seu irmão, o guitarrista Noel Gallagher: “Ela foi feita para Noel. Sim, é uma musiquinha sacana, mas é linda”.

Diamond In The Dark é uma faixa dançante, é tipo um blues moderno com uma parte hip-hop e outra mais lenta, uma completa inovação para ele como interprete, mas que também de imediato vem a sensação de “já escutei essa melodia em algum lugar”. Há deslumbres aqui de R U Mine do Arctic Monkeys nos riffs de guitarra, uma banda que tem laços com os Gallaghers. Pelo visto, o tipo de som que produzem é algo que Liam já queria aproveitar, fazendo assim surgir uma das melhores músicas de sua carreira solo como um todo. Muitos vão estranhar, mas ver todo o potencial dos músicos de sua banda sendo explorado é algo que era esperado a muito tempo.

Don’t go halfway que parece uma música do Kula Shaker ou do Primal Scream e C’mon you know são as partes britpop do álbum. já que não possuem tantas variações melódicas, elas entram aqui como faixas meio mantras que penetram no subconsciente, são as únicas que parecem ter uma conexão boa quando vem em sequência, mas não por conta de suas letras, se for se orientar por elas vai ver um som dissonante.

Don’t Go Halfway vai no caminho de sua arrogância e ar blasé de superioridade em um relacionamento chamando a contra parte de “aberração” em dado momento. Já a faixa título, ao longo de uma construção lenta de palmas e uma instrumentação que gradualmente aumenta, faz Liam Gallagher nos encorajar a “começar a viver, ser grato” e “mostrar amor ”. Além disso, fala com certa veracidade que “estou cansado de agir como se eu fosse durão / Vamos, baby, dê um abraço”, que faz ele então implorar, suavizando e se sentindo mais relacionável do que nunca como resultado.

Too Good For Giving Up vem como uma respirada profunda de alívio, ela é a única que parece rememorar que passamos tempos difíceis frente a uma pandemia e sensação de solidão, funciona como uma faixa motivacional, trata-se de uma bela balada setembro amarelo. Quando entra a banda a melodia fica de extremo bom gosto, parece uma balada de Sir Elton John de algum álbum dele dos anos 2000, lembrei de I Want Love que é minha faixa preferida da lenda dos pianos.

It Was Not Meant To Be é bem estranha, a melodia é desencontrada com o vocal, parece ser uma faixa pra encher linguiça no álbum, em seguida, finalmente vem o hit Everything’s Electric. A faixa abre com uma sensação propulsiva de Sabotage dos Beastie Boys antes de se estabelecer em uma melodia vibrante centrada na guitarra e na bateria. Por ser a união do que de melhor rolou nos anos 90, já é o suficiente para o hype ser enorme. Não importa se a letra não é uma obra prima, o que Dave Grohl (que co-escreveu a música) faz na bateria e o refrão tão bem cantado faz tudo soar como uma mistura cativante de Foo Fighters com Kasabian. A faixa é a quintessência de Liam, com sua voz poderosa em coros de “uuuhuus”.

A próxima é a faixa World’s In Need, a mais distante de tudo que o Liam já fez. Uma música totalmente hippie dos anos setenta, parece um som do Love e captei também um pouco de Eric Burdon na sua carreira solo, facilmente minha preferida até aqui. Por sinal, Liam podia apostar em mais sons como o dele, fazer releituras com arranjos diferentes de clássicos do rock como o bandleader do Animals fazia quando estava na War. Há um belo arranjo de cordas na orquestra e uns riffs folk, pouco explorados pelos músicos de apoio até então. Para não parecer tão fora da realidade, ela é como se fosse a irmã mais bem trabalhada de Gone do seu álbum anterior Why Me? Why Not! de 2019.

É evidente que Liam saiu de sua zona de conforto, neste próximo número, uma balada cinematográfica com temática 007: uma orquestra ditando uma dramaticidade e suspense, mas com movimento de filme de ação. Trata-se de Moscow Rules que foi composta com o apoio e co-autoria de Ezra Koenig do Vampire Weekend que tocou saxofone nessa e na faixa título. Nada a ver com a política global contemporânea, a faixa tem um teor de auto crítica ou é mais um som para o irmão, não ficou muito claro.

Agora voltamos ao rock – ou a uma forma mais moderna de rock – , com o caráter combativo tão característico de Liam. A batera mais eletrônica até aqui, bem rock alternativo 2000 com pitadas de música eletrônica e um efeito de sanfona com momentos meio reggae no pré refrão que não ficaram tão legais. Ouvi essa música crente que escutaria um “i’m freeeeee” estilo aquele feito em Whatever, um “lado b” do Oasis, mas não rolou. Ela serve mais pra mostrar o quanto os membros de sua banda são qualificados.

Better Days é o grande hit, sampleia a batera de Tomorrow Never Knows, coisa que Liam já viu acontecer em Falling Down, música que o irmão Noel cantava no Oasis. Ela também traz uma novidade, uma mudança de discurso: ao invés de ser combativo, suas palavras transbordam positividade e a alegria de se reunir com amigos, familiares e fãs. Sua versão ao vivo demonstrou ter mais efetividade, certamente vai agitar o público quando for cantada em Knebworth com copos de cervejas estendidos.

Agora vem mais uma balada, Oh Sweet Children, um autoconsciente Lennon nos anos 70. Existem muitos como estes; enchimento de som claro. Ela tem um arranjo estranho, mas que traz certa similaridade com five years de Bowie, principalmente quando entra as guitarras, o que faz a música ficar realmente mais ok. Receio que quase cochilei nela na primeira ouvida do álbum, mas o refrão funciona como um bom despertador. Me fez lembrar de outra faixa dos Stones, Fool To Cry, por ter esse formato de ser conduzida por um logo acorde prolongado no teclado e crescer no refrão.

Finalmente o álbum volta a ficar interessante, The Joker é depois de Better Days a faixa mais pop do disco. Isso deve ter influência do Harry Styles e uma galera com quem Liam anda conversando. Nunca pensei que veria o Liam fazendo um vocal para uma faixa pop rock, adorei os backings estilo coral de igreja. Mas as letras são bem problemáticas no álbum, nessa tem até piadinhas que só os britânicos vão entender como “quadris de rosquinha”.

Wave é suja, com uma maravilha de riff que parece até que o Royal Blood resolveu ser a banda de apoio. Mais uma vez temos backing vocals dando um up no som. Entretanto, a última faixa do disco é uma canção de protesto confusa que, como as crianças podem dizer, é um pouco assustadora. Frases como “você é o único prisioneiro das guerras da informação” e “você leva uma arma para o cérebro quando está livre” enlameiam os gritos políticos de Gallagher.

Dá para provavelmente avaliar o prazer do álbum com base na recepção dos singles. Se você os amou, aperte o cinto, porque você está com sorte. Se não, sinta-se à vontade para pular a lista de faixas para encontrar o que lhe interessa. É esse sentimento que caracteriza o álbum. C’MON YOU KNOW não cumpre a promessa de um Liam Gallagher reinventado. O disco está longe de ser uma experiência ruim de audição, mas os fãs que esperam ouvir o início de uma nova era terão que esperar.

Nota final: 7/10

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