Revisando Clássicos: Led Zeppelin – IV

Por Luis Rios

Bem vindos a mais um revisando clássicos, aqui analisamos discos atemporais que, de alguma forma, marcaram a história da música de maneira revolucionária. Traremos uma introdução ao álbum contando fatos que o fizeram importante para a carreira da banda, um faixa-a-faixa (excepcionalmente neste reduzido) e, por fim, citações das principais mídias especializadas em reviews

NOVEMBER 8: Album cover of “Led Zeppelin IV”. (Photo by Michael Ochs Archives/Getty Images)

Antes de começar a matéria mais que especial, não deixe de conferir, antes ou depois, o The Rock Pod, podcast da The Rock Life, com Leandro Souto Maior, autor do livro Jimmy Page No Brasil, aonde nós falamos de algumas curiosidades do guitarrista, da banda e de várias músicas desse álbum. Muita informação interessante. Imperdível para qualquer apreciador de Led.

Aproveitem o texto.


INTRODUÇÃO AO ÁLBUM

O Led Zeppelin significa o quê pra você que gosta de rock and roll? O 4°disco de 1971, que foi lançado sem título na capa e sem créditos na contra capa, e que foi definitivamente apelidado de “Led IV” por nós fãs, significou o quê pra você, quando ouvido pela 1°vez?

Antes de continuar lendo, é interessante respondermos rapidamente essas questões. Isso nos ajudará muito… Através das próximas linhas, nós vamos penetrar a aura de um dos álbuns mais sensacionais de todos os tempos. Ele é misterioso e ao mesmo tempo, revelador. Led Zeppelin IV. Eu o chamo assim, mas fique a vontade pra chama-lo como quiser. O que importa é o que a música contida nele vai te causar ou já causou desde a primeira audição! São muitas lendas também, então, é só deixar rolar de Black Dog a When The Levee Breaks. As canções falam por si só. E era assim que eles queriam que fosse…

A banda foi montada por um experiente guitarrista e músico tarimbado dos estúdios, que tinha tocado nos Yardbirds. O interplanetário James Patrick Page escolheu os outros músicos a dedo. A banda uniu o rockabilly, o blues, o folk e o hard rock com um peso até então inimaginável. Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham formavam a renomada e bem sucedida banda Led Zeppelin, quando o disco de 1971 saiu. Eles tinham lançado três discos fabulosos em dois anos com vendas substanciosas e estavam super entrosados e unidos. Mesmo assim, a crítica especializada pegava pesado e era dura demais nas avaliações. Pra começar a entender no que se tornou esse 4°disco, saiba que o Led Zeppelin IV vendeu 37 milhões de cópias aproximadamente ao redor do mundo e hoje em dia está na 12°posição de mais vendido de todos os tempos.

Não há nada escrito na capa, porque a banda estava chateadíssima com as críticas recebidas por seu antecessor. O Led Zeppelin III. A contragosto da gravadora Atlantic, Page queria que as pessoas comprassem o novo álbum pela música e não porque sabiam que era um disco do Led Zeppelin. Assim, os quatro integrantes bateram pé. O que fez com que demorasse um pouco pro disco ser lançado. O grupo só liberou os tapes das gravações em agosto, após um acordo que selava a decisão de que não seria colocado nenhum título escrito, e sim quatro gravuras escolhidas por eles pra representa-los. Peter Grant, o empresário e ex lutador de luta livre, de voz suave a atitude agressiva, garantiu tal decisão com certa facilidade. O disco contém o maior hit que a banda fez na sua história. A música mais tocadas nas rádios americanas em 1971 e pós lançamento. A marca registrada do Led Zeppelin. Ela é Stairway To Heaven.

Ele foi o 1°álbum da banda a contar com outros participantes nas gravações (a vocalista do Fairport Convention, Sandy Denny em The Battle of Evermore e o pianista dos Rolling Stones, Ian Stewart em Rock and Roll). Este último não creditado. Ele teve somente um cover, When The Levee Breaks. Foi composta lá pelos idos dos anos de 1930, por Menphis Minnie e está registrada no disco como se fosse de autoria de Page, Plant, Jones, Bonham e Memphis Minnie. A versão tem muitas diferenças do tema original da compositora e cantora de blues americana. Se fala, que o Led Zeppelin se apropriou de algumas canções e de alguns riffs também, principalmente no início de sua trajetória. Se isso é realmente verdade, o que tenho a dizer é que os quatro músicos souberam muito bem como potencializar composições e darem um brilho todo especial a elas. A genialidade de Page nesse quesito, era inequívoca.

No selo do vinil e no encarte original estão inseridos os quatro símbolos que representam seus quatro integrantes. Sandy, a convidada, ganhou também um símbolo no encarte do álbum. Cada um escolheu um símbolo. Page nunca falou abertamente sobre o que significava o seu. Só disse que é algo que o protege. É realmente um mistério, já que era sabido por todos sobre sua adoração pelo ocultismo de Aleister Crowley. Inclusive o músico possui até hoje a mansão em que o “guru satânico” viveu e alguns dos artefatos usados em seus rituais macabros. Plant desenhou o seu próprio (a pena nele significa justiça e representa os escritores). Jones e Bonham pegaram seus respectivos símbolos em um livro de runas. O de Bonham está relacionado com a família. Pai, mãe e filho, mas também lembrava o logo de uma cerveja que ele gostava. Mr. Bonzo era incrível! O de Jones era a simbologia da competência e confiança. O fato é que eles usaram esses símbolos como jogada de marketing antes do lançamento do disco, através de “teasers” que sacudiram a imaginação dos fãs e da imprensa.

Todos esses detalhes e outros, ajudaram a criar toda uma mística em torno do que se chamou Led Zeppelin IV (disco do lenhador, untitled, Runas, ZoZo ou Quatro Símbolos). Ao longo da carreira de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, essas muitas estórias, os fatos sensacionais e seus inúmeros relançamentos em boxes ou versões remasterizadas e especiais, elevaram cada vez mais o status dessa verdadeira entidade da música. E o “Led IV” é considerado um dos mais importantes discos na história do rock, da maior banda de rock de todos os tempos, pra muitos…

Retornando 50 anos, vamos relembrar fatos que caracterizaram a essência dessa obra prima, abrindo aspas para os próprios responsáveis pela obra. “…nomes, títulos e coisa do tipo, não querem dizer nada…” (Page).

“Depois de tudo que haviamos conquistado, a imprensa ainda nos via como uma jogada comercial. Eu e Robert criamos juntos a capa de IV. Robert havia comprado a pintura da capa numa loja de antiguidades… tivemos a idéia de utilizar o quadro do homem com os gravetos, colocado na parede do prédio demolido, com o novo surgindo atrás…foi idéia minha o Eremita do Tarô, um símbolo de autossuficiência e sabedoria… as fontes usadas na letra de Stairway To Heaven também foram contribuição minha… achei-as tão interessantes que contratei um artista pra criar um alfabeto completo com elas”

Jimmy Page

É, eu fiquei ali sentado perto de Jimmy enquanto ele a tocava… precisei me concentrar um pouco… foi uma letra muito fluida… havia algo a empurrando… se quiserem fazer algo atemporal, aqui vai uma canção de casamento.” (Plant, sobre a letra de “Stairway To Heaven”).

Bonzo e Robert tinham ido embora… trabalhei duro nela… Robert estava sentado por perto… e acho que ele compôs 80% da letra naquele dia…, subitamente, lá estava ela…” (Page, ainda sobre “Stairway To Heaven”).

Depois de Led IV, pararam de nos comparar com o Black Sabbath“.(Jones).

 “Ainda tenho tenho grandes lembranças daquele disco, estávamos tomados por um espírito maravilhoso. Todos tinham um grande sorriso no rosto”. (Page, perguntado em 1990 se tudo havia mudado com Led Zeppelin IV).

Mais ou menos assim, com muitos outros elementos apimentando a história do álbum, inspiração pura, genialidade e árduo trabalho, foi concebido “Led Zeppelin IV”. Verdadeiramente um dos discos da minha vida. Daqueles que sempre que pego pra ouvir, volto a um passado nostalgicamente fantástico, como é o álbum. São melodias e letras mágicas. Riffs enigmáticos e uma sonoridade incomparável!

Vamos a mais fatos e lendas.


No dia 8 de novembro de 1971 o Led Zeppelin lançava um disco sem título e que possuia um série de canções que impactaram de modo surpreendente seus fas. Ele era bem diferente de seus antecessores. A música era mais rica, mas ele não causou boa impressão em todos. Principalmente quando ouvido pela primeira vez. E ainda tinha uma canção de letra enigmática e com um início acústico longo demais. Uma balada que precisou de tempo pra ser digerida por muitos. Antes disso, na turnê anterior que foi muito bem sucedida, como atestou John Bonham, eles já haviam tocado algumas das composições do disco. Black Dog, Stairway To Heaven e Going To California foram testadas e bem vistas pelo público. A crítica…? Sempre foi um problema pra eles. Precisou de um tempinho, mas logo logo, o álbum atingiu a 2°posição nos EUA e chegou ao topo nas paradas britânicas. Com o passar dos anos, se tornou o 4°álbum mais vendido de todos os tempos nos Estados Unidos.

Até hoje, quando abro a capa gatefold do vinil e me deparo com o eremita segurando a lamparina e leio e releio a letra de Stairway To Heaven que está no encarte, faço uma viagem. A interpretação muda. O imaginário segue criando imagens na mente. Isso é magia! E da boa! Realmente essa música, a princípio meio radiofônica e “levinha“, tem esse dom e esse disco como um todo, tem o poder de transportar você pra outra dimensão. E para entender um pouco mais sobre o porque desse disco ter a capacidade de te envolver diferentemente de todos os outros que o Led fez, é curioso saber mais à respeito de onde as músicas foram feitas e como se deu de fato esse processo.

Mansão Headley Grange. Em um dos seus quartos foi gravada “Stairway To Heaven”

É imperativo que se saiba que em setembro de 1970, a banda estava por terminar a turnê do Led III e a estafa tomava conta de todos. Assim, eles decidiram que não aceitariam uma extensão da tour. Peter Grant, o empresário, que também estava cansado e muito gordo, aproveitou para se refestelar e se tratar em um spa. Dessa forma, a banda começou a se preparar pro futuro. Bonham e Jones foram ficar com suas respectivas famílias e Plant e Page resolveram se refugiar numa velha e pequena casa em South Snowdonia (Reserva natural), no País de Gales, onde haviam passado um tempo na primavera anterior. Decidiram retornar ao local, batizado de Bron-yr-Aur (nome galês de uma das músicas do Led III). Pegaram a estrada com dois de seus roadies e lá ficaram até o final de 1970. Ali, eles começaram a dar mais corpo a esboços de músicas que eles já tinham. Acharam juntos, inspiração pra compor num lugar bucólico e afastado, onde tinham paz e tranquilidade. A casa de pedras em que ficaram hospedados e a rusticidade foram os ingredientes perfeitos para o início das composições de canções como Misty Mountain Hop. E inclusive, algumas que não seriam aproveitadas no Led IV e só apareceriam nos discos seguintes, House Of The Holy e Physical Graffiti. É o caso de Over The Hills And Far Away e The Rover respectivamente.

Em dezembro, os dois se reuniram com John Paul Jones e John Bonham nos estúdios que gravaram o álbum anterior (Londres) e continuaram o trabalho, dando mais forma as canções. Apesar de tudo estar indo muito bem, acharam que o ambiente do estúdio estava diminuindo a capacidade criativa da banda e resolveram se isolar num lugar onde poderiam ter mais estímulos pra compor com o mínimo de pressão possível. O local escolhido foi a úmida e já conhecida mansão/estúdio em Headley Grange, em Hampshire. A casa estava meio caindo aos pedaços, mas apesar de estarem acostumados a coisas muito melhores, ficaram por lá. Jimmy teve a intuição que naquele local, eles conseguiriam ter a paz pra criar que necessitavam. Ele adorou o aspecto fantasmagórico e sombrio em que se encontrava o local. O ambiente realmente trouxe a criatividade a tona.

A banda não tinha nada pra fazer. Não havia nenhuma distração que pudesse compromoter o trabalho. Trabalhavam nas composições, tomavam chá e caminhavam pra buscar inspiração no aprazível e rural lugar. Versões embrionárias de No Quarter e Night Flight, bem como aproximadamente 14 músicas foram trabalhadas neste período de “retiro”. Metade do que foi usado em Led IV.


FAIXA-A-FAIXA

E o que entrou em Led IV? Bem, as oito canções escolhidas e que entraram no álbum, mesclavam o folk, o blues e o rock and roll. Evidentemente elas possuiam os ingredientes mágicos que só aqueles quatro caras podiam encontrar juntos. Foi tudo saindo naturalmente. E rápido. Os takes gravados em Headley Grange, com a utilização do caminhão móvel dos Rolling Stones, foram sendo apurados ao máximo. Mas a acústica que encontraram neste estúdio, era perfeita e a sensação que tenho quando ouço o disco é a de que estou num castelo, envolvido por candelabros, cortinas esvoaçantes e lustres suntuosos. É como se o teto se expandisse e eu me visse subindo as escadarias que me levam pro céu! Jimmy Page tinha um especial tino pra produção, mas o que foi feito aqui, supera muito os outos três discos. A masterização e mixagem teve que ser refeita, porque a primeira não caiu no gosto dos integrantes, mas a finalização desse trabalho é um bálsamo em forma de petardo sonoro!

Analisar as músicas individualmente, enquanto ouvimos o álbum na íntegra, é algo adorável de se fazer! Então, vamos lá…

BLACK DOG

O disco abre com Black Dog. Assusta até quem já conhecia o Led. A levada de batera do maior que já sentou atrás de um kit no rock and roll, é em 4×4, mas a guitarra do mestre ZoZo é insistentemente em outro compasso em vários momentos. São vários riffs que foram unidos, a partir da criação do principal por John Paul Jones. A música beira o demoníaco com os urros e gemidos de Plant e a explosão vulcânica do bumbo de Bonhan. O solo estridente e descompassado da guitarra que acelera com o uivo de Plant harmonizando, soa de fato comonse um Zeppelin de chumbo estivesse explodindo. Um som que se ouve logo no início da canção é explicado por Page como o aquecimento do exército das guitarras. Durante a música, você ouve quatro guitarras em overdub. Na letra, Plant fala de uma mulher que desperta seus interesses lascivos. O nome da canção foi dado por conta de um golden retriever preto que ficava perambulando pela mansão. A frase: “…olhos que brilham em vermelho vivo…“, levam as pessoas a acharem que se está falando de satanás.

Nem tudo que faço deve ser examinado as minúcias… músicas como Black Dog são o tipo de coisa que se canta no chuveiro…” (Plant). ” Ele (riff) me ocorreu quando voltava de um ensaio na cada de Jimmy… estava ouvindo uma música do Muddy Waters do disco Electric Mud, que tinha um riff de blues longo… pensei que gostaria de tentar algo naquelo formato…” (Jones, criador do riff principal de Black Dog“). Ainda sobre a faixa… “Lutamos com a virada até que Bonham sacou que a idéia era continuarmos em 4/4, como se não houvesse virada… escolhemos o nome dela em referência a um cachorro preto que entrava e saía do estúdio…

John Paul Jones

Rock And Roll

Rock And Roll. Essa banda não poderia existir sem ter uma de suas músicas com esse título. Na verdade, para os bluesmen, esse título dado a uma canção significava de sexo. E a banda era considerada como uma das que mais tinham “bom relacionamento” com as groupies. Eles representavam exatamente essa palavra. Na sua acepção plena, Sexo e rock and roll.  É uma homenagem ao Rockabilly e ao R&B. É uma apologia a música americana e a seus ícones como Little Richard e Chuck Berry. Aqui, participa Ian Stewart, o sexto Rolling Stone, que veio junto com o caminhão móvel. Seu piano marca avassaladoramente a canção. Bonham espanca os chimbals e a caixa. Jones mantém o ritmo e Plant e Page fazem seus instrumentos gritarem como nunca. Voz e guitarras estridentes e vibrantes. Que timbre e alcance de voz inacreditável de Plant.

A energia criativa fluiu depois que eles colocaram Four Sticks (estavam empacados) de lado e começaram a trabalhar nessa nova música, que chamaram primeiramente de It’s Been a Long Time. Jimmy Page tocou uma parte de guitarra, e a essência da música foi concluída em cerca de 30 minutos. A banda costumava usar ela para abrir os shows de 1971 a 1975.

Essa música representa pra mim pessoalmente, um dos momentos mais extraordinários da minha vida em shows de rock. O dia 27 de janeiro de 1996 está marcado indelevelmente no meu coração. O que eu presenciei na Praça da Apoteose, Rio de Janeiro, durante a execução dessa música pelo projeto Page & Plant, também deixou profundas e belas marcas na alma de Jimmy Page. Ele disse o seguinte recentemente em uma de suas redes sociais: “Nesse dia (27 de janeiro) em 1996, o Page & Plant detonou no Rio ao realizar um excelente show no Hollywood Rock Festival, no Rio de Janeiro, Brasil. Tocar para uma plateia rugindo com entusiasmo e girando as camisas acima da cabeça foi uma experiência e tanto”.

Choro de emoção até hoje quando vejo o vídeo! Lembro de rodar a camisa, enquanto assistia um Page estupefato olhando pra multidão!

Battle Of Evermore

J.R.R. Tolkien é referencia para Robert Plant escrever a letra da acústica Battle Of Evermore. O retorno do rei, o senhor das trevas e os nazgûls são mencionados aqui. É o bem contra o mal. As trevas contra a luz. E tudo embalado por uma melodia melhorada a cada tentativa no violão de Page, mas criada no bandolim de Jones. Segundo Jimmy, ele pegou o bandolin que era de “Jonesy” (carinhoso apelido de Jones) certo dia, e começou a dedilhar algo que estava em sua mente. Daí saiu a melodia. Agudos de Plant ressonam. A participação de Sandy Denny é um contraponto belíssimo. Dá uma harmonia vocal até então nunca ouvida numa música do Led. Infelizmente, Denny morreu em 1978 de hemorragia cerebral, resultante de uma queda de uma escada. A banda sempre estava rodeada por acontecimentos digamos… funestos…

Stairway To Heaven

O que falar sobre Stairway To Heaven? A maior e mais fantástica canção feita por uma banda de rock. O alcance dessa maviosa e misteriosa música invadiu galáxias e dimensões eqüidistantes! Eu não tenho dúvidas disso. Ela é linda e envolvente em sua parte acústica. E ela é impetuosa e energética na sua parte elétrica. Seu riff inicial, segundo fontes, foi surrupiado de uma canção de uma banda amiga. O Spirit (Taurus era o nome da canção). Mas o que Page e os outros fizeram com essa música, nunca teve precedentes. Nenhuma outra banda faria. A flauta doce de Jones e a voz medieval de Plant dão o tom inicial. A guitarra de 12 cordas de Jimmy entra e você se percebe sentado na Távola Redonda, bebendo um vinho numa taça de estanho! A melodia vai ecoando em seus ouvidos e te fazendo se sentir como um rei.

Overdubs da guitarra são percebidos, o baixo marcante e a levada cadenciada de Bonham são o complemento. O solo de guitarra (que deu um trabalhão pra ser gravado) e que vem lá pelos 6 minutos, é como se fosse a lâmina de uma espada cortando suas entranhas. Quando você percebe que não morreu, a música acelera e Plant canta a última estrofe, grunhindo e te acordando de um sonho lúgubre e maravilhoso. A letra, claro, foi psicografada por Plant durante dedilhados de Page no violão e o crepitar da lareira que aquecia as suas genialidades. Plant disse certa feita, que nesse momento estava de mal humor, e mesmo assim, o lápis começou a se mover sozinho… pra muitos, o fato de Page ter uma conexão com a magia de Aleister Crowley, dava a explicação de que a letra da canção estava sendo ditada pelo Diabo. Ora, se foi, parabéns pra ele…

Ela nunca foi lançada como um single, mas as rádios da época receberam algumas cópias promocionais pra tocar em suas respectivas programações… você consegue imaginar quanto deve valer um compacto desses…?? Pouco foi tocada, por ser grande demais e isso alavancou as vendas do álbum. Tiro certo de Peter Grant e seus “meninos”, que não permitiram em hipótese alguma que fosse editado um single pras rádios. A interpretação da letra fica como você bem quiser. Plant certa vez, confidenciou que dependendo do dia em que ele ouvia a música, a letra tinha um significado. Num outro dia, significava algo diferente. A única parte que ele explicava era a que fala da mulher que acumulava riqueza, sem dar nada em troca… De toda forma, sempre que você ouvir, lembre-se, o eremita está com a lamparina acesa, olhando pra você e lendo seus pensamentos. Enquanto você estiver ouvindo os 8 minutos mais espetaculares, épicos e oníricos do rock, deixe tudo de lado. O Diabo, a mulher acumuladora, Aleister Crowley, as lendas… se fixe na música notável e pujante da maior composição do rock de todos os tempos.


Misty Mountain Hop

Abrindo o lado 2, Misty Mountain Hop foi escrita por Plant. A letra também é inspirada em Tolkien e fala dos Hobbits e dos hippies. O piano elétrico de Jones te leva a galope montanha acima. Lá você encontra as viradas sensacionais de Bonham e os urros de Plant. A cadência é pura empolgação e o solo de Page te faz babar. Como sempre. As “Misty Mountains” as quais Plant se refere, ficam no País de Gales. Lugar que trás ótimas lembranças para o autor da letra.

Four Sticks

Em Four Sticks, John Bonham toca com quatro baquetas! Duas em cada mão. Só dois takes foram feitos e um logo em seguida do outro. Já é um absurdo fazer um, porque fisicamente é desgaste que só um rinoceronte aguentaria. Mas estamos falando de Bonzo, não é verdade…? A batida é dificílima! Ele esmurra os tontons e marca no chimbal insanamente. O bumbo é um coração descompassado, que ritmicamente só ele seria capaz de bater com aquele vigor. A guitarra riffa, trazendo um clima oriental exótico. O sintetizador de Jones sola em overdub. Isso, juntamente com o violão de Page. Tudo vem aumentando ainda mais e a sensação é a de estarmos na Índia ou no Paquistão. Bonham teve realmente muitas dificuldades pra grava-la, mas depois de ouvir a canção Keep a Knockin de Little Richard, de 1957, que contou com o aclamado baterista Earl Palmer nas baquetas, ele se inspirou, “virou” uma cerveja e com Page ajudando e dando um riff diferente pra acompanhar, a canção saiu na hora.

É um desbunde. Ninguém faz ou fez nada igual.

Going To California

Going To California é sem dúvida a música mais leve de toda a discografia da banda. Page e Plant inspiraram-se em Joni Mitchell. Na letra, o cara da música está procurando por uma garota como ela, uma com “amor nos olhos e flores no cabelo” que “toca violão, chora e canta“. Como ela foi morar em Lauren Canyon, Los Angeles, na década de 60, Page uniu o útil ao agradável. Fez uma música pra ela e também homenageando o lugar dourado, que fica na ensolarada Califórnia. Quando Jimmy Page e Andy Johns (excelente e requisitado engenheiro de som) voaram para Los Angeles para mixar o álbum em 9 de fevereiro de 1971, a área ainda estava sentindo os tremores do terremoto Sylmar, que atingiu aquela manhã San Fernando Valley. Page ficou um pouco assustado e insistiu em mixar Going To California por último, caso a música de alguma forma provocasse tremores. Na letra há uma parte que aborda de maneira poética um tremor de terra.

Essa tal mixagem na Califórnia não ficou boa. Teve que ser refeita em outro estúdio (Londres) posteriormente. Jimmy caprichou e só a última faixa do álbum não foi mexida. A música é belíssima! Page toca violão de 6 e de 12 cordas e Jones bandolim. Esse set acústico permite que Bonzo descanse um pouco para o que vem pela frente. Ele precisava… vocês vão ver por quê…

When The Levee Breaks

Esse épico fenomenal não poderia fechar sem uma homenagem ao blues. Mas o peso hecatômbico do Led Zeppelin tinha que predominar. When The Levee Breaks começa e a sua cabeça parece que vai perder o tampo. A batida de Bonzo inicia a destruição de tudo! De fato, a letra fala sobre as enchentes que quase acabaram com o sul dos EUA, na década de 1920. Ela é tocada nos tradicionais 12 compassos do blues e ressona como um lamento logo de início, na gaita tocada por Plant. Daí até a entrada do canto potente e lamurioso, são quase 90 segundos de uma introdução que abala qualquer ser humano! Os slides de Page são fulminantes. Os agudos de Plant acompanham. Depois a gaita volta, gemendo ainda mais… Bonham continua espancando os pratos e furando o bumbo. Tudo isso vai te envolvendo.

Essa enorme densidade da batida veio quando Page descobriu dentro de sua genialidade que a sala principal e ampla da casa podia fazer o trabalho sujo com seus ecos. Daí ele montou a batera de Bonzo no meio, onde o teto era bem mais alto e colocou três microfones acima dela, pra captar seu som. Outro foi colocado mais distante da batera. Pronto. Quando eles ouviram a fita, tomaram um susto. O som dela retumba, principalmente o do bumbo e da caixa, que ecoam e dão todo o poder que esse bluezaço precisava. A música foi gravada em um andamento diferente. Plant então, cantou em um tom intermediário, com a música sendo desacelerada na fita. É o que explica seu tipo de som plano, mais reto, particularmente na gaita e solos de guitarra. Se ouve a banda tocando e a voz de Plant muito presente, como se estivesse abraçando os instrumentos como um todo. Isso também tornava muito difícil toca-la ao vivo com precisão.


O QUE DISSE A MÍDIA?

Depois do lançamento de Led Zeppelin IV e a já referida impressionante subida do álbum ao topo das paradas até a 2°posição, só foi barrada incrivelmente por Tapestry de Carole King. A crítica foi dura e amarga. Mas só que com o passar do tempo já sabemos o que aconteceu. O rock and roll não foi mais o mesmo. E eles se renderam… quase todos.

Stephen Thomas Erlewine, do conceituado Allmusic, deu ao álbum a nota máxima de cinco estrelas e apontou que o disco não define apenas o som da banda, mas sim o som do hard rock dos anos 70 como um todo; Erlewine escreveu que mesmo a canção mais simples, Rock and Roll, possui um grande efeito dramático, e que Stairway to Heaven é a canção mais famosa do grupo por uma boa razão, pois, segundo ele, “a faixa evolui de um simples som de violão até uma batida forte, épica e impactante que embala o disco inteiro.” Daryl Easlea, da BBC Music, apontou Rock And Roll, Black Dog e Misty Mountain Hop como “os pontos altos de um gênero“, e definiu o álbum como tendo um som “imaculado“, possuindo uma “musicalidade obscura e uma marcante mudança de tons“, e Burhan Wazir, da Billboard, escreveu que o álbum traz um “brilhante contraste de sons“, e é uma ótima combinação do hard rock com o folk rock.

Uma turnê de 2 anos encheu o bolso dos quatro rapazes. O que possibilitou até a compra de um avião particular que se chamaria “Starship“. A fama e adoração por parte dos fãs era algo incontestável! O Led Zeppelin era quase uma religião. Led Zeppelin IV deu esse status a banda. Banda essa, que magicamente tinha o poder de fazer com que uma canção folk soasse como um trovão. Banda essa, que definitivamente estava elevada a um lugar que jamais sairia. Ela é considerada pela maioria, como a maior banda de rock de todos os tempos. E e não vou negar isso, simplesmente porque Aleister Crowley e o Eremita estão de olho…Ainda pretendo continuar ouvindo e ouvindo Led Zeppelin IV até a eternidade e continuar subindo, subindo a escadaria, pra chegar lá, seja onde for, são e salvo…

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