Review: Respect: A História de Aretha Franklin

Uma das cinebiografias mais fidedignas com a linha temporal dentre todas que já vi.(…) O desenvolvimento da história da rainha do soul é muito mais fluido, podendo ser acompanhado como “uma novela”, bem diferente do caso do filme de James Brown, interpretado pelo saudoso Chadwick Boseman, que é um tanto confuso ou o de Freddie Mercury cheio de erros históricos e endeusamento exagerado.

Roani Rock

Direção: Liesl Tommy
Data de lançamento: 13/08/2021
Aonde assistir?: Prime Video


Em Respect: A História de Aretha Franklin, acompanhamos a carreira da musa Aretha Louise Franklin (Jennifer Hudson), desde sua infância, cantando em corais da igreja, até seu estrelato internacional em meados dos anos 70 quando se torna a rainha do soul, defensora dos direitos civis e militante em prol das mulheres. Esse background remonta o conceito de uma biografia premonitória. Os espectadores sabem que ela se tornou um dos maiores ícones da música norte-americana, no entanto o roteiro decide comprovar este fato através de evidências coletadas ao longo da vida. 

A “DreamgirlJennifer Hudson consegue apresentar um trabalho primoroso, provavelmente o papel de maior destaque de sua carreira. Ela foi escolhida a dedo por Aretha e a benção chegou com a possibilidade de ter um breve convívio para estudar a personagem de pertinho, potencializando a boa interpretação sem soar caricata. Entretanto, o filme ganhou um víeis de homenagem póstuma para rainha do soul que não pôde ver o filme concluído devido a sua morte em 2018. Quando li a respeito, lembrei de imediato de Jamie Foxx no filme Ray, quando este interpretou o pianista e lenda do blues Ray Charles, que também não estava mais presente em vida quando o filme estreou na grande tela.

Diferente do que ocorre em Dreamgirls, onde o personagem de Hudson tem que dividir os holofotes com Beyoncé, em Respect: A história de Aretha Franklin assistimos a atriz desfilar em um merecido protagonismo. Sua interpretação traz a faceta de uma menina cândida e tímida que passa por alguns traumas como a morte prematura da mãe e um abuso sexual na infância. Estar a par de tais fatos em referencia a personagem real nos choca, a partir do momento que em shows e aparições midiáticas sempre víamos Aretha como uma pessoa onipotente e brincalhona. Hudson também deu sua própria voz para versões impressionantes das canções com o apoio inicial da excelente atriz mirim Skye Dakota Turner para demonstrar as emoções e intenções nas músicas, principalmente nos cultos.

A mensagem que conduz o filme: A música salvará sua vida foi deferida pelo icônico arranjador e músico gospel o Reverendo James Cleveland (Tituss Burgess). A frase é o ponto de partida, ela move a cantora que tem a primeira transformação, a da fase criança interpretada brilhantemente pela jovem Skye Dakota Turner, para a versão adolescente já sendo interpretada por Jennifer Hudson. O crescimento da personagem é exponencial, surgindo a confiança da moça, cantando nos cultos com presença de figuras como Martin Luther King (Gilbert Glenn Brown) e Smokey Robinson (Lodric D. Collins) partindo em seguida para Nova York para que aos 14 anos de idade assinasse seu primeiro contrato com a Columbia Records por intermédio do pai que queria controlar sua carreira. Numa festa da família ela conhece seu futuro marido Ted White, sendo interpretado pelo comediante Marlon Wayans de uma forma séria e impressionante, tornando real ao decorrer do filme a figura do cara ciumento e agressor.

Por sinal, o elenco é estrelado por comediantes, todos os citados anteriormente e até Mary J Blige que interpreta Dinah Washington, “a cantora negra mais popular das canções dos anos 1950”, tem seu pezinho na comédia. E com isso posso dizer que uma das coisas que mais gostei do filme foi ter sido fiel a certos fatos históricos, para quem é fã e conhece algumas das emblemáticas histórias de Aretha, foi muito legal ver uma encenação de como foi a gravação de I Never Loved A Man (The Way I Love You) com os Swampers em Muscle Shoals, onde Ted White reclama dos músicos de apoio serem brancos tocando música de negros. Também pairava no imaginário a luta entre ele e o dono do estúdio, o icônico Rick Hall (Myk Watford), em um hotel.

O relacionamento da cantora com o produtor Jerry Wexler (Marc Maron) na Atlantic Records também é bacana e por consequência, o início do romance dela com o road manager Ken Cunningham (Albert Jones) apesar de pouco explorado era importante de aparecer. Foi uma relação que começou após o divorcio dela com Ted White em 1969, Cunningham foi amplamente reconhecido como tendo um impacto positivo em Aretha e a encorajou a parar de beber e passar a comer de forma mais saudável, o filme apresenta um pouco disso mesmo que de forma sutil.

A criação da música Respect é um dos pontos altos do filme. Foi o grande sucesso de sua carreira naquele início e é apresentado ao expectador o momento em que Aretha ao piano cria o arranjo de madrugada. Mas não se engane, essa música foi feita e gravada primeiramente por Otis Redding, figura que podia ter aparecido no filme só para fazer a brincadeira em que ele diz: “A garota tirou essa música de mim. De agora em diante, pertence a ela”. Ela rearranjou a música e adicionou algumas partes na letra mudando o conceito para algo voltado a representação feminina os direitos das mulheres. Ela faz algumas brincadeiras ao lado das irmãs Erma e Carolyn Franklin, que faziam o coro pra ela nos shows e gravações, com a adição de “ree ree” nos improvisos, este era um apelido carinhoso que a rainha do soul tinha.

Graças ao excelente trabalho da diretora Liesl Tommy e Aretha ter sido uma mulher tão única, certas previsibilidades na forma de contar a história caíram por terra. Esta foi uma das cinebiografias mais fidedignas com a linha temporal dentre todas que já vi. É certo que o roteiro trabalha com uma divisão rígida em três atos: juventude e amadurecimento; consagração; recaída e redenção. A forma como isso é moldado na última parte tem alguns problemas, mas enxergo a dificuldade em colocar 20 anos de uma vida inteira resumida em 2horas e 25 minutos de filme. Usando como exemplo algumas outras obras recentes, o desenvolvimento da história da rainha do soul é muito mais fluido, podendo ser acompanhado como “uma novela”, bem diferente do caso do filme de James Brown, interpretado pelo saudoso Chadwick Boseman, que é um tanto confuso ou o de Freddie Mercury cheio de erros históricos e endeusamento exagerado.

Concluindo, o filme assim como toda obra biográfica tem que receber uma romantização e os acontecimentos tem que sofrer uma adequação para casar com o roteiro. Os problemas como usar o artifício do “demônio tomando o controle” até ela voltar praticar a religião, tanto como ter virado alcóolatra de uma hora pra outra faltando shows e por fim, fazendo o que o pai dela queria desde o início, que era um álbum Gospel tira um pouco do brilho da obra. Mas, ao mesmo tempo, pouco impactam essas questões. Quem quer conhecer Aretha e um pouco de sua história vai amar, até porque o álbum Amazing Grace de 1972 foi realmente o auge de sua carreira e um passo ousado que a fez de fato conquistar diversos públicos ao ponto de faturar Grammys e ser a primeira mulher a receber a condecoração do Rock ‘and’ Roll Hall Of Fame.

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