80 Anos de Ney Matogrosso: 8 rocks cantados pelo “homem com H”

Por Roani Rock

Um dos artistas mais subversivos de todos os tempos. Atemporal, Ney Matogrosso completa neste domingo 80 anos de vida e este ano completa 49 de carreira. Quase meio século de música e mais que isso em valorização a arte e em fazer barulho, seja como vendedor de peças de artesanato na rua, iluminador de grandes palcos para shows de Chico Buarque, Nana Caymmi e Nelson Gonçalves na Sala Cecília Meireles, ator de curta metragens, vocalista do Secos & Molhados ou portando uma das mais consolidadas carreiras solo de um músico no Brasil que transcendeu para reconhecimento mundial, Ney é aquele ser diferenciado capaz de unir todas as tribos!

Ney foi criado sobre uma forte repressão dos pais que eram militares e com uma revelação pessoal passou a ser influenciado pelo estilo de vida hippie, desafiou seu velho, saiu de casa e se tornou um nômade. Antes de ser andarilho parou no Rio de Janeiro com a mãe enquanto o pai estava na guerra. Lá conheceu a turma do espetáculo teatral Dzi Croquettes, que tinha a questão da androgenia e crossdresser como força motriz do espetáculo além da música. Quando foi convidado para virar o vocalista da banda de um rapaz criativo e muito louco chamado João Ricardo com um estilo único de composição a base de poemas feitos pelo pai e parcerias com Luhli, Ney se travestiu por completo ajudando a formar a imagem do Secos & Molhados.

Quando resolveu ter sua carreira solo, ele seguiu trazendo conceitos pouco apreciados pelos sensores da ditadura, como: semi nudez, uso de vestido, danças sensuais e músicas como Homem com H, O Vira e tantas que terminam sendo ligadas a homossexualidade. Ele já não fazia só rock, implementou uma variedade de estilos o tornando um cantor versátil capaz de cantar samba, bolero, MPB, forró, entre outros. Mas esse tipo de confronto e impacto forte, sem ficar preso a conceitos, o fez uma figura que até hoje é mais rock ‘and’ roll que muito bebê chorão conservador antivacina.

Essa lista que preparamos contempla muito mais do que interpretações de Ney para grandes rocks da música popular brasileira, as quais ele traz sua cara e arranjos primorosos. Algumas vão ter até histórias interessantes do envolvimento do cantor com os compositores, enriquecendo a lista com contexto histórico além de só falar do bom gosto do Ney.


Sangue Latino

Ai está Ney ao lado de  João Ricardo (vocais, violão e harmônica) e  Gérson Conrad (vocais e violão) no início dos Secos e Molhados chocando muitas famílias de bem brasileiras que diziam que não seriam capazes de fazer sucesso. O primeiro disco, aquele das cabeças expostas na mesa de jantar, vendeu mais de 1 milhão de cópias na época, tornando eles um dos maiores fenômenos da música popular brasileira. Infelizmente a banda teve vida curta devido a muito ego e a pretensão de Ney em fazer carreira solo abrindo mais o leque de possibilidade sem ficar preso ao rock, que ele nunca abandonou.

Sangue Latino é uma das faixas ao lado de O Vira que fizeram mais sucesso, que prende realmente pela simplicidade da melodia e complexidade de sua letra que alude à “condição latino-americana, os ‘descaminhos’ dos povos desse continente, bem como a sua capacidade de resistir”, e é vista como uma intenção do grupo de conciliar o engajamento estético da década de 60 com o clichê dos hits internacionais. A levada clássica do baixo foi feita por Willy Verdaguer, baixista argentino da banda Beat Boys que apoiou dentre outros grandes artistas o Caetano Veloso.

As maquiagens e as roupas de Ney junto com a performance causaram um forte rebuliço e quase que não ocorreu essa exibição na tv, ainda bem que o Canal Cultura não desperdiçou a oportunidade. A canção foi escolhida pela revista Rolling Stone Brasil como a quadragésima Maior Música Brasileira de todos os tempos.

Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu Sangue Latino Uh! Uh! Uh! Uh!
Minha alma cativa

Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua

Essa música é de Sérgio Sampaio, artista de Cachoeiro do Itapemirim, mais um herói da contracultura. Ele foi lançado por Raul Seixas, quando este era produtor da gravadora CBS. Sua ligação com Ney fica restrita a contemporaneidade, acredito que não tenham tido uma ligação artística ou pessoal como com outros da lista.

Lançada em 1972, Eu quero é botar meu bloco na rua foi censurada pelo suposto sentido de incitação da população contra as forças armadas. Na época, o exército levava tropas para as ruas, como meio de demonstrar a força para os cidadãos. Sérgio Sampaio também queria colocar a sua tropa (bloco) na rua, com objetivos diferentes. O Bloco de Sampaio queria “um quilo mais daquilo” e “um grilo menos disso”. O Durango Kid, que aparece na letra da canção, é uma metáfora para militares, no caso o inimigo que impedia o bloco de ser “botado” na rua.

Essa versão de Ney foi para a turnê mais recente dele lançada em 2019 que recebeu o nome de “Bloco na Rua” que rendeu um excelente registro em dvd disponível no youtube. Usando a música de Sampaio como temática, o show recebeu interpretações mais rocks e o repertório tinha canções de Rita Lee (Corista de Rock), dos Secos & Molhados (mulher barriguda, Sangue Latino e Tem gente com fome), Raul Seixas (A Maçã), Caetano Veloso (como 2 e 2), dos Paralamas do Sucesso (O Beco) e uma de Milton Nascimento, Coração Civil.

Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer

Metamorfose Ambulante

Com esse clássico do Raul temos mais uma música que podemos transferir sua identidade para o Ney. Ele a interpreta com tanta verdade e com tanto gosto que Raul certamente ficou emocionado na primeira vez que teve ciência disso pelo disco Pecado, o terceiro da discografia de Ney Matogrosso lançado em 1977.

Bem coerente ao meu ver essa faixa entrar neste álbum já que após a saída do Secos & Molhados, o nosso homenageado estava procurando criar um repertório trazendo sua já citada identidade, uma música que fala sobre transformação sem se preocupar com estigmas e querendo fugir “daquela mesma velha opinião formada sobre tudo“. Veio muito a calhar, ainda mais com o momento do refrão que termina com a frase “eu sou um ator”, profissão que Ney gostaria de ter seguido antes de ter se apaixonado completamente pelo canto. Metamorfose Ambulante sempre está presente nos repertórios do cantor.

Ele chegou a gravar outros sons de Raul como Mata Virgem, facilmente encontrada no disco de 1981 denominado “Ney Matogrosso” e A Maçã, presente na última turnê do Bloco na Rua, ambas interpretações belíssimas. A relação entre o os dois não é muito comentada, acredito que se restrinja a parcerias de liberação das músicas e encontro em turnês, certamente Ney o reverencia.

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Coração Civil

Ney Matogrosso é um cara afrontoso e que não se deixava calar. Essa música de Milton e Fernando Brant caiu como uma luva tanto para o repertório de 2019 e na versão que foi parar no disco de 1983 …Pois é (em uma versão um tanto para os moldes da época), mas nos shows a importância da letra que traz uma mensagem positiva e ao mesmo tempo ela é tão contestadora que se não foi feita pensada para o Ney Matogrosso, ela certamente passou a ser assim que este resolveu inseri-la em seu repertório.

Ney é muito amigo de Milton ao ponto do primeiro participar em 2019 do programa Altas Horas feito em homenagem ao cantor e compositor mineiro. Além disso gravou também San Vicente do disco Pecado, Bôdas no Água do Céu-Pássaro, primeiro álbum solo após a saída do Secos & Molhados. Gravou também Notícias do Brasil e Fruta Boa no álbum As Aparências Enganam. Fé Cega, Faca Amolada no Vagabundo Ao Vivo e por fim Coração Civil, já comentada.

Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade dos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver

Balada do Louco

Esse som dos Mutantes combina com nosso homenageado devido ao tom bem agudo e principalmente pelo fato dele ter uma grande amizade com Rita Lee, nossa rainha do rock nacional, que fez parte da banda e ajudou a criar a canção junto ao Arnaldo Baptista. Ney desde o início de sua carreira solo regravou muitas músicas da Rita, mas a maioria lados b. Bandido Corazon, Com a Boca No Mundo, vira-lata de raça, Uai- Uai (a qual ela participa da gravação), Corista de Rock da fase Tutti-Frutti, mas também verdadeiros sucessos como Doce Vampiro.

Essa é uma das obras prima da música brasileira. A Balada do Louco, foi lançada em 1972 e teve como inspiração um fato inusitado que foi Arnaldo sendo golpeado numa aula de karatê por uma colega. Ele sentiu a insegurança que “a sociedade impõe sobre a fragilidade e por isso o homem tem que ser superior as mulheres”, com a música ele tentou reverter esses conceitos frente ao impacto do episódio em sua vida, claro, recebendo o apoio de Rita que contribuiu e deu um toque poético aos versos da canção, fazendo com que ela ficasse ainda mais filosófica. Ela passa de toda forma uma mensagem bem interessante, em suma para viver a vida de um forma mais livre e leve. 

A faixa é um hino hippie e o Ney Matogrosso foi hippie durante a juventude e início da fase adulta. Então a origem nem importa muito e sim as palavras expressas nela.

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Fala

Eu já citei o nome desse cara mas não falei um terço da importância de João Ricardo para o rock brasileiro e para o Ney. Ele era um jovem sonhador que amava os Beatles e os Rolling Stones, que queria ter uma banda capaz de reproduzir o som do Crosby, Stills and Nash.

Ele tinha uma forma bem Do It Youself de tocar violão e a chegada de músicos profissionais e de excelência técnica possibilitaram as ideias loucas e poéticas serem potencializadas. Ney Matogrosso pode até ser um fator determinante para sucesso dos Secos & Molhados e de boa parte da obra de João Ricardo que ele cantou aos longos dos anos a parte da obra do S&M. Mas João tem o mesmo papel na vida do cantor, seja por Sangue Latino, O Vira, Mulher Barriguda ou… Fala .

Esse blues maravilhoso é de co-autoria da poetiza Luhli. É a última faixa do primeiro álbum de 1973 do grupo e recebeu um apoio grandioso de Zé Rodrix, outra lenda do rock brasileiro. Ele tocou o teclado moog deixando sua marca. A estruturação de sua letra é bem clara e diferente com umas rimas que literalmente falam muito.

Abaixo a versão feita para o show que Ney fez em parceria com a Nação Zumbi em homenagem ao Secos & Molhados no Rock In Rio de 2017.

Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá
Fala

Pro Dia Nascer Feliz

Cazuza foi o grande amor da vida de Ney Matogrosso, palavras do próprio. A importância do Caju não só para o lado íntimo e pessoal de Ney ultrapassa o transcendental. Foi algo muito mais que carnal, foi enriquecedor e não digo isso na questão financeira – que também teve seu lugar – essa relação proporcionou inspiração e reconhecimento.

Enquanto o relacionamento amoroso não era tão aberto, Ney ajudou e muito o Barão Vermelho a começar a estourar quando lançou sua versão de Pro Dia Nascer Feliz. Foi escancarado, ele lançou essa antes do segundo álbum do Barão que continha a faixa sair. Nos shows ele mencionava a banda fazendo o jabá e ai foi só Cazuza, Frejat, Dé, Guto Goffi e Maurício Barros aproveitarem a viagem de voo a jato com o iluminado guru Ney Matogrosso cuidando de apontar a direção do vento.

Abaixo a apresentação dele de Pro Dia Nascer Feliz horas antes do Barão fazer seu show mais memorável com a formação original no Rock In Rio de 1985.

Todo dia é dia
E tudo em nome do amor
Ah, essa é a vida que eu quis
Procurando vaga
Uma hora aqui, a outra ali
No vai e vem dos teus quadris
Nadando contra a corrente
Só pra exercitar
Todo o músculo que sente
Me dê de presente o teu bis
Pro dia nascer feliz
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir, dormir

Poema

Essa faixa composta por Frejat e Cazuza ganhou um forte impulso depois da morte do antigo vocalista da Barão aos 32 anos de idade por decorrência do vírus da aids. Ney já havia confessado que teve um relacionamento com o cantor quando interpretou a música no álbum de 1998 Olhos de Farol, mas é interessante que sua origem não tem ligação com a morte do cantor ou do relacionamento dele com Ney.

A ligação com o músico foi logo feita e a letra é tão emocional, saudosista e ao mesmo tempo tão forte que ficou perfeita para a interpretação sentimental de Ney com seus olhos penetrantes de tão esbugalhados, claramente fica tocado toda vez que a canta. Uma das melhores composições de Cazuza sem usar muito esforço para pensar num top 5. A letra é sensacional e o riff em slide sintetiza a sutileza da mensagem que é basicamente uma carta de amor que Cazuza fez para a avó aos 17 anos de idade.

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

4 comentários

  1. Ney merece todos os elogios pois é um grande artista e uma pessoa fantástica. Há várias incorreções no texto. Se quiserem, entrem em contato comigo por e.mail que posso informar todas elas.

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    1. Oi Rita, tudo bem?
      Pode falar por aqui mesmo as incorreções. Mas se for uma questão de datas e quantidade de vezes que uma das músicas apareceu em álbuns pesquisei através do site oficial do Ney. Vi álbum por álbum, mas se nem todos os dele estiverem lá fico te devendo.
      Se for uma questão do relacionamento dele com os outros músicos como Raul… bem, não achei muitas informações sobre.

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