Revisando Clássicos: Titãs – Cabeça Dinossauro

Por Roani Rock

Bem vindos a mais um revisando clássicos, aqui analisamos discos atemporais que, de alguma forma, marcaram a história da música de maneira revolucionária. Traremos uma introdução ao álbum contando fatos que o fizeram importante para a carreira da banda, um faixa-a-faixa e, por fim, citações das principais mídias especializadas em reviews. O álbum de hoje é o indignado clássico do Titãs, Cabeça Dinossauro.

Introdução ao Álbum


Classificado pelo vocalista Branco Mello ao jornal O Estado de S. Paulo como um álbum de “rock mais seco, mais cru” com um som “mais primitivo, mais visceral“, isso em 1986, começaremos a falar daquele que é o álbum responsável a dar vida ao rock brasileiro oitentista pós rock in rio de maneira mais dura e essencial.

Sabemos que este álbum já foi revisado por muitos veículos de comunicação no último mês, por conta do aniversário de 35 anos e diversas revistas e páginas já até cansaram de esmiuçá-lo por todos esse tempo, devido a sua importância que o fez ser construído como um clássico. Mas, não tinha como ser diferente, nosso primeiro álbum nacional tinha que ser o terceiro dos Titãs, é um ato fundamental de nossa parte. Não só pela transformação punk no som deveras mutante deles, mas também devido a todo background importantíssimo para entender até aquele período de saída de uma ditadura, com a criação de um governo mais democrático.

O cenário era o seguinte: Como a banda no álbum Televisão não obteve tanto êxito, resolveram fazer com que os resquícios de Pop e New wave fossem expurgados do som para o próximo disco, fora os shows carregados de revolta e atitude punk que já vinham moldando o novo som; o vocalista e um dos principais compositores Arnaldo Antunes e o guitarrista Tony Belloto estavam presos por porte de heroína afetando toda a agenda da turnê. Esses dois fatos fizeram com que a fonte criativa para a produção do que veio a se tornar o Cabeça Dinossauro entrasse no ápice, com material muito inspirados e com lugar de fala para a indignação.

A força motriz para o álbum além da raiva foi uma nova parceria – que a contra gosto de alguns dos envolvidos em um primeiro momento e com requintes de animosidade durante o processo – possibilitasse a gravação ficar mais profissional e nos moldes que necessitavam. a direção e produção musical ficaram a cargo de ninguém menos do que Liminha, ex-baixista dos Mutantes e que naquela altura já tinha moldado seu nome como um dos grandes produtores da MPB tendo gravado Guilherme Arantes, Gilberto Gil e os contemporâneos dos Titãs: Kid Abelha e Lulu Santos. Depois de alguns anos, banda e produtor viraram bons parceiros com Liminha sendo taxado como o “nono titã”.

Após tudo ser arrumado e finalmente o Cabeça Dinossauro ver a luz do dia, o disco revolucionário abalou o sistema. O álbum foi desafiador em todo seu processo já que nem a gravadora botava fé, os Titãs apresentaram o conceito e algumas canções prontas e eles aceitaram, mas as chance de nada ir bem eram enormes. Uma reviravolta de quando o álbum foi lançado foi ver a mudança de comportamento das emissoras de rádio que moviam-se de forma lenta e com resistência para tocar as faixas. A primeira música de trabalho, AAUU, por exemplo foi um dos alvos, sendo boicotada em um primeiro momento. A situação mudou depois que o programa Fantástico, exibiu o clipe.

Um momento divisor de águas para o disco e para a banda foi o de uma performance em particular. Conhecido como o “quebra-quebra no teatro Carlos Gomes”, a apresentação feita no Rio de Janeiro formou um novo público para o octeto Titânico. Pela demora de uma equipe de peça infantil demorar de retirar seu equipamento e possibilitar a entrada da banda, fez com que os fãs perdessem a cabeça, para que? Assim que a banda começou a loucura foi tão instantânea quanto a adoração para qualquer música presente no álbum.

Esse show foi tão antológico que os seguintes que normalmente eram feitos para no máximo 500 pessoas, agora recebia 5 mil. Como lembra o vocalista e tecladista Sérgio Brito em matéria para a Globo: “Quando estreou o show no Projeto SP, a gente esperava 300, 400 pessoas, e foi tudo vendido. E o público cantava todas as músicas. Para a gente aquilo foi um choque”. As rádios passaram a pagar para tocar o material que não passava pela ainda existente censura, ao menos 8 músicas ficaram sem poder ser escutadas de outra maneira que não nos shows, o que justifica ainda mais o aumento do público, o boicote e o anti-marketing foram a melhor propaganda gratuita da época para os Titãs.

A crítica às instituições é uma das tônicas do disco, que tem alvos como o estado, a família e o capitalismo selvagem, tudo cantando e berrado de forma direta, crua, com energia. A faixa-título tem apenas três frases: “Cabeça dinossauro / Pança de mamute / Espírito de porco”. “Esse ‘ataque conceitual’ às instituições, de certa maneira, foi casual. Há uma dose de coincidência, que não era aleatória, pela época”, afirma Nando Reis o baixista do grupo.

São 13 faixas com aproximadamente 39 minutos, gravado no estúdio “Nas Nuvens”, no Rio de Janeiro entre março e abril de 1986. Possui a repugnante capa de um dos quadros de Leonardo Da Vinci conhecido pelo nome de Cabeça Grotesca, ela foi escolhida pelo Sérgio Britto e assim como as músicas, essa capa ficou muito marcante, de uma forma bem visual. Vendeu cerca de 700 mil cópias e mesmo depois de mais de 30 anos do seu lançamento soa mais atual do que nunca. O álbum também foi responsável por inspirá-los em outro trabalho, Nheengatu, o 14º álbum.

Faltava barulho na música brasileira, essa coisa da vontade de cantar gritado. Isso não existia, ou existia pouco. No mainstream, com isso de ter vocais gritados, o ‘Cabeça’ foi exceção. Acho que essa foi uma grande contribuição nossa

Tony Belloto

FAIXA-A-FAIXA


Um faixa-a-faixa se torna conveniente, seguiremos a ordem numérica já que elas todas tem sim a sua importância, não só em termos mercadológicos, mas também para a história das bandas envolvidas.

Cabeça Dinossauro (Arnaldo Antunes / Branco Mello / Paulo Miklos)

Concebida durante uma viagem de ônibus da banda, foi inspirada na música tribal Xingu, após Paulo Miklos mostrar aos amigos uma gravação em fita cassete. Branco Mello deu o tom raivoso no excelente vocal usando como métrica os versos “Cabeça dinossauro/Cabeça dinossauro/Cabeça, cabeça, cabeça dinossauro“, já a percussão foi tocada por Liminha. Após várias tentativas elaboradas, ele utilizou das paredes, do chão e das colunas do estúdio para tirar o som, a performance “em transe” foi aprovada por todos.

Nessa música não há especificamente um alvo, não há um contexto político direto para a utilização dos nomes de animais e criaturas como metáforas, mas acreditasse que “cabeça dinossauro” e “espírito de porco” é destinada a aquelas pessoas que tem uma visão mais conservadora e egoísta do mundo. Por conta deles a última frase citada se tornou de uso popular para falar que alguém esta agindo de má fé.

AA UU (Marcelo Fromer / Sérgio Britto)

Os titãs apresentavam nas canções deste disco títulos curtos sem mais do que duas palavras, “Confluências de ideias, estéticas e artísticas, que se encaixaram muito bem, que completaram muito bem o texto das canções, absoluta consonância entre a sonoridade de cada faixa com o que estava se cantando.” Com disse o baterista Charles Gavin em entrevista ao canal do Gilson Naspolini. AA UU nem se quer é uma palavra, mas esse som falava muito e claramente.

Essa foi o primeiro single escolhido pela banda, eles assim o fizeram mesmo a contragosto da gravadora que a considerava pouco radiofônica, principalmente por seu refrão ser um grito. Ela conseguiu chamar atenção e deu uma assinatura artística e sonora para a banda. Abaixo o clipe com o selo do fantástico que possibilitou a popularidade da faixa.

Igreja (Nando Reis) 

Nando conta que compôs a música em um violão de nylon na casa da mãe, no Butantã, em São Paulo.

Naquele ano foi quando Godard lançou o filme ‘Je vous salue, Marie’, houve um boicote contra o filme e o Roberto Carlos, de quem eu sou fã incondicional, escreveu algo apoiando o boicote. Aquilo, de certa forma, ia contra os meus ideais, a questão da liberdade. Isso me motivou a escrever essa música.” (…) Esse ‘ataque conceitual’ às instituições, de certa maneira, foi casual. Há uma dose de coincidência, que não era aleatória, pela época

Nando Reis

É uma canção com todos os elementos do punk rock, a negação, o “não aceitar”, a crítica ferrenha para as instituições. É a única música composta exclusivamente por Nando, e pra ela entrar custou um pouco. Ela tinha tanto poder que chegou a incomodar Arnaldo Antunes em primeira analise, certo incomodo que o fazia sair do palco quando a banda a executava. Mais forte do que sua versão do álbum e a do reencontro de 30 anos dos membros com Nando, foi ter apresentado a faixa em diversos programas de tv, inclusive no programa do Jô Soares e nessa performance ao lado de Caetano Veloso.

Polícia (Tony Bellotto)

Interessante pensar que ela quase não entrou no disco porque ninguém enxergou potencial nela em um primeiro momento. “Polícia para quem precisa, para quem precisa de polícia”… Essa foi composta no período em que Tony Bellotto esteve preso. A forma como foi conduzida a investigação, a forma como ele e Arnaldo foram tratados pela polícia de São Paulo, terem perdido uma agenda de shows. Tudo isso impactou forte o guitarrista que escreveu com bastante raiva.

Falando nisso, a forma como os vocais foram gravados também é interessante. Sergio Britto se prontificou a ficar com os vocais por dois fatores: O primeiro é que Paulo Miklos já tinha escolhido Estado, Violência para cantar, mesmo com Polícia tendo sido pensada para ele. O segundo motivo foi Sergio ter só duas músicas enquanto o restante dos vocalistas já tinha três.

Nesta altura, um dos primeiros estranhamentos com Liminha rolou. Segundo Sérgio Britto isso ocorreu porque ele ficou restrito a três minutos para gravar e enquanto colocava a voz na música o produtor conversava sobre pesca submarina com o vocalista da Blitz, Evandro Mesquita, que visitava o estúdio Nas Nuvens (onde o álbum foi gravado) naquele dia. “Parecia que ele não estava se importando muito, por isso acho que cantei com mais raiva.” Intencionalmente ou não, o resultado é o que ficou para a história.

Abaixo a execução visceral da música no Rock In Rio II.

Estado Violência (Charles Gavin)

Essa composição de Charles Gavin é uma verdadeira aula sobre bateria, nela encontramos as principais referências do baterista em evidência. além de Stuart Coppeland do The Police e os sons dos anos 70 do Rush, The Who e Zeppelin, Gavin pode contar diretamente com o mestre Lauro Lellis que o ajudou a compor o arranjo da bateria.

A faixa tem um ritmo baseado no funk americano, mas o importante dela é a letra que fala por si só, há uma agonia e uma forte crítica aos moldes do sistema. Há um forte senso de abandono e falta de liberdade, de medo e de dor. Cantado com primor por Paulo Miklos, arrisco a dizer que a música que não é nem de perto um hit ou uma das preferidas dos fãs, é a que mais me impacta ao lado de Igreja do lado A do álbum.

Estado Violência
Estado hipocrisia
A lei que não é minha
A lei que eu não queria
Meu corpo não é meu
Meu coração é teu
Atrás de portas frias
O homem está só

A Face do Destruidor” (Antunes / Miklos)

A música que não chega a ter 40 segundos de duração, recebe um vocal que condiz ao seu título, gravado “em um fôlego só” em cima da base tocada de trás para frente. Segundo Sérgio, “quando gravamos tínhamos que pensar que aquilo ia ser ouvido dessa maneira”. Bom ver essa parceira um tanto incomum na autoria, com Paulo Miklos sendo creditado. Interessante que ela traz o efeito de ser tocada ao contrário, no “reverse”, “de trás para frente”.

Porrada (Antunes / Britto)

Seguindo a mesma linha de Estado Violência, a anárquica Porrada segue o teor de protesto. Nesta Arnaldo tira sarro de forma bem agressiva e ácida de instituições e de bancários. Seu título condiz com tudo que é cantado. Abaixo um vídeo bem punk com a banda recebendo Arnaldo depois de muitos anos afastado deles para a comemoração dos 30 anos de banda no show feito em 2012.

Medalhinhas para o presidente
Condecorações aos veteranos
Bonificações para os bancários
Congratulações para os banqueirosPorrada
Nos caras que não fazem nada

Tô Cansado (Antunes / Mello)

Havia o momento do Brasil que estava se desenhando muito problemático, uma ditadura militar ainda se desmanchando, a morte de Tancredo. O clima era de desilusão, um cenário de distopia. E havia também nosso momento como banda. Tínhamos vindo de “Televisão”, nosso segundo disco, incompreendido pela gravadora (Warner), que não foi bem trabalhado. Isso nos provocou certo dissabor, ceticismo com a música, a carreira. Chegamos ao disco com raiva do mercado, da gravadora, de todo mundo.

Charles Gavin

Essa tem uma das melhores melodias do disco. Tem um piano bem presente, acho que a que melhor mostra a presença de Sérgio no instrumento. O octeto traz bastante pressão no álbum, acredito que seja a música mais pós-punk do disco, eles era muitos fãs do New Order e nessa eles trouxeram esse som apesar do discurso de protesto dentro da letra que flerta mais com o punk. Mais uma parceria com Arnaldo dessa vez com Branco Mello.

Bichos Escrotos (Antunes / Reis / Britto)

No canto direto, na parte debaixo do álbum você pode encontrar essas informações: “A Música Bichos Escrotos tem a radiodifusão e execução pública proibidas em virtude de ter sido vetada pelo departamento de censura e diversões públicas da SR e do DPF”. O interessante é que o motivo pelo qual ela sofreu essa repressão é o uso de um palavrão no refrão.

O mais louco é que a música já estava feita bem antes. Bichos escrotos, que abre o lado B do LP Cabeça dinossauro, era para ter sido gravada no primeiro disco. O grupo mudou de ideia porque o palavrão presente na letra poderia comprometer o acabamento do trabalho como um todo, sendo que para o Cabeça eles já estavam tão putos que mandaram para todos o glorioso “vão se foder” que embarreirava o lançamento da música e ela se tornou uma das mais importantes.

Feita por Nando, Sérgio e Arnaldo em 1983 esteve presente nos shows desde então. No estúdio Placa Luminosa eles a compuseram em base de uma improvisação que ocorria no ambiente inspirados pelo aparecimento de uma barata. Então ela não é de protesto, é mais provocativa, não é uma analogia, eles realmente estão falando dos bichos de forma divertida e com humor ácido que eles mesmos passaram a fazer analogias no futuro, como disse Nando ela era como um estandarte do posicionamento da banda.

Tem também a fantástica história da serenata na casa de Paulo Miklos que havia acabado de se casar. Estava Nando, Britto e Arnaldo numa pizzaria chamada Belgas, eles saíram de lá, estavam bêbados e urravam a letra da música para a lua de mel do amigo.

“Família” (Antunes / Bellotto)

Essa faixa ficou muito associada ao Nando Reis devido a ele ser a voz que a interpreta, mas ela foi composta por Arnaldo Antunes e Tony Belotto. Não era a primeira música tendo como base o reagge dentre as compostas pela banda. Eles já haviam lançado as versões brasileiras para clássicos como Querem Meu Sangue e Marvin no álbum anterior. Mas Família tem um diferencial além de ser uma composição original, ela foi a que fez mais sucesso.

Se analisarmos o álbum bem, ela fica um pouco deslocada, ela tem uma aura mais alegre e não chega a fazer uma crítica a definição do que é família, ela só traz aborda situações de cotidiano de forma interativa e identificada. É a canção de maior teor popular e cativou o público se tornando uma das mais queridas do repertório da banda e da carreira solo de Nando Reis.

Abaixo essa versão tão importante para um álbum tão importante quanto o cabeça, que traz o Liminha interpretando a canção junto com os Titãs.

Homem Primata (Ciro Pessoa / Fromer / Reis / Britto)

Essa música foi feita baseada no refrão que foi composto por Ciro Pessoa, sua principal contribuição para a composição inclusive. Após isso Sérgio Britto, Nando Reis e o guitarrista Marcelo Fromer se uniram para montar tanto o arranjo quanto a letra dos versos e a ponte.

Esse trabalho em grupo foi um dos mais importantes não só para este álbum e esta música, mas para todos os trabalhos da banda, principalmente após a saída de Arnaldo que foi um baque e uma perda inestimável. Essa música não tem participação do compositor, uma das poucas. O que não é ruim já que todos os Titãs ao longo do tempo, até antes do Cabeça já se mostravam capazes e muito criativos de abordar diversos temas, mas faziam com gosto criticar o sistema.

No clipe eles aparecem dentro de uma jaula em um zoológico, fato ao menos atípico, hoje em dia não seria algo imaginado. Mas, para o roteiro da música foi uma ideia muito precisa. É a canção mais rock do disco e ela é continua bastante atual.

Dívidas (Antunes / Mello) 

O tempo mostrou que essa vertente estava no nosso DNA, por isso o ‘Cabeça’ é uma grande marca, com toda a coisa do questionamento, com a crítica que a gente vê nas letras, com o punk, mas também o reggae, o funk. Acho que nesse disco a gente achou o caminho.

Tony Belloto

Essa tem sua base no ska e o teclado de Sérgio Britto também. É mais uma com a marca Antunes e Mello, então é algo mais falado do que propriamente cantado. Se der pra reclamar de algo no álbum, essa é a mais fraca em comparação as demais em termos de arranjo, um tanto cansativa e repetitiva. Mas a sua ideia é essa mesmo já que se trata de uma reclamação.

O Que? (Antunes)

Essa é a música final do disco, é um poema magnífico do Arnaldo, meio ambíguo. Trata-se de um proto rap bem baseado nas ondas do ska utilizadas no pós – punk. O que? tem uma levada bem eletrônica acompanhada do groovado baixo de Nando Reis, depara acompanhar sua letra-poema circular. O produtor Liminha contou ao G1 na matéria especial do disco que ele ficou uma semana inteira trabalhando na composição, que tem bateria eletrônica e efeitos pilotados por ele (DMX e drumulator, como consta na ficha técnica). Ainda há um solo com pedal de wah-wah de Tony Belloto.

Hérica Marmo que escreveu a biografia do Titãs “A Vida Até Parece Uma Festa” diz que os caras utilizavam o fim dos discos para dar dicas do que estava por vir. Em “Televisão” por exemplo, apesar dos temas românticos de Sonho com você, Insensível e Pra dizer adeus – que se tornaria hit mais de dez anos depois ao ser regravada no Acústico –, faixas como Pavimentação,  Autonomia e Massacre tinham como norte alguns elementos que podem ser vistos no disco de 1986.

Acho que era meio isso. ‘Massacre’ apresentava o ‘Cabeça’. ‘O que’ apresentava o ‘Jesus’ [não tem dentes no país dos banguelas, álbum de 1987], com aquele lado eletrônico. Acho que um disco fala com outro”, diz Hérica.

O Que disse a Mídia?

Segundo Nando Reis, a mídia paulista principalmente dava muito apoio ao octeto, entretanto, por conta de uma birra por conta dos fatos das prisões e ainda ter uma visão um tanto bairrista a mídia carioca os utilizava como alvo, acusando-os de terem até plagiado as Frenéticas na música “Ai, se eles me pegam agora” quando compuseram Policia. Uma acusação infundada.

Com o tempo a popularidade do disco o fez um clássico incontestável e muito mais elogiado. Certamente um divisor de águas, não dá para falar do Titãs sem falar do Cabeça Dinossauro.

Na época do lançamento do disco, o crítico Alberto Villas, d’O Estado de S. Paulo, afirmou que o álbum era “a grande surpresa do ano. (…) É um disco chocante, punk, nervoso e muito curioso. Um disco de rock-veneno, um grito. Um álbum de surpresas.

Abrindo com as primais ‘Cabeça Dinossauro’ e ‘AA-UU’, o disco trazia uma sequência de músicas contra tudo e contra todos: igreja, polícia, estado, sistema financeiro, família, rotina e seres-humanos em geral. E se alguém não estava contemplado num desses grupos, podia estar entre os que “não fazem nada” agraciados com a faixa ‘Porrada’. A punk ‘Bichos Escrotos’ funcionou como uma catarse nacional, com um sonoro “vão se fuder” que estava entalado na garganta por anos de censura gritado a plenos pulmões pelo grupo e pelo público. 

Rosângela Petta, Caderno 2, Estadão, 1986

Os Titãs são o que são por causa de Cabeça Dinossauro. É um disco muito representativo não só para eles, mas para uma geração de pessoas. Também é um trabalho que é possível ver, pela primeira vez na discografia da banda, os rumos que eles tomariam na carreira ao questionar certas coisas. Mais para frente, eles e os fãs sentiriam falta de um trabalho semelhante.

Music On The Run, 2014

As duas que fecham o disco, “Dívidas” e “O Quê” trazem a banda mostrando maior diversidade musical, o que não faz o disco perder a qualidade, mesmo que elas destoem do restante da obra, A primeira é mais voltada ao Pop, remetendo muito às músicas de seu álbum anterior, enquanto que na faixa que fecha a obra traz uma batida bem diferente, que inclui percussões, uma atmosfera mais puxada para o Funk (por favor, caro leitor, não confunda aqui com essas porcarias erroneamente chamadas de Funk, que rolam nas festinhas Brasil afora). 

Flavio Farias, Roadie-Metal, 2019

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