Revisando Clássicos: The Who – Who’s Next

Por Luis Rios

Bem vindos a mais um revisando clássicos, aqui analisamos discos atemporais que, de alguma forma, marcaram a história da música de maneira revolucionária. Traremos uma introdução ao álbum contando fatos que o fizeram importante para a carreira da banda, um faixa-a-faixa (excepcionalmente neste reduzido) e, por fim, citações das principais mídias especializadas em reviews. O álbum de hoje é o aclamado quinto álbum de estúdio de uma das bandas mais importantes da história do Rock, o cinquentão Who’s Next, do The Who.


INTRODUÇÃO AO ÁLBUM

Os meses que antecederam ao lancamento de Who’s Next em 14 de agosto de 1971, foi um período conturbado para os integrantes do The Who. Muitas dúvidas existiam a respeito de como seguir em frente. Um projeto meio “non sense” e megalomaníaco pairava na mente brilhante e desarrumada de Pete Townsend. Pedaços inacabados e não bem trabalhados de demos com possíveis boas idéias, precisavam ser melhorados. Era preciso conviver com a fama e sucesso alcançado com Tommy de 1969 e que levou o Who a estratosfera do estrelato mundial. Tudo isso trazia mais ansiedade e incertezas. Havia a estafa física e mental de todos e muitos sentimentos misturados por conta de tanto sacrifício para criar Tommy e faze-lo emergir para o sucesso. Todos aqueles problemas emocionais citados, o estremecimento natural dos elos de amizade entre os rapazes, ocasionada pelos desentendimentos, drogas, muita grana e dívidas rolando, egos inflados, além do comportamento difícil de seu incontestável líder e compositor.

Eram ingredientes perfeito para a catástrofe e provavelmente para o nascimento de um disco que poria tudo a perder. Aquilo que conquistaram com Tommy e também com os discos anteriores, estava em risco. Aquele ano de 1971 prenunciava muitos problemas. Então, como compor um álbum que pudesse manter a banda no topo? Havia mais um detalhe importante que pode nos fazer entender o contexto da época. Led Zeppelin, Faces, Rolling Stones e outras bandas, estavam em ascensão e tomavam os 1°lugares das paradas. De fato, o Who precisava de um disco que fizesse jus ao que eles eram naquele momento. A ascenção da banda não podia parar.

Falando das composições especificamente, a Opera Rock que Townsend queria finalizar (Lifehouse) não decolava. Porque, sem dúvida, era impossível se terminar algo tão despropositado. Enfim, ficou decidido pelo abandono da loucura Lifehouse e algumas daquelas músicas começaram a ser finalizadas. Glyn Johns foi o produtor, que evidentemente teve muito trabalho para direcionar o novo projeto e fazer nascer do caos e da tensão que reinava no ambiente da banda, o que apreciamos já em uma 1°ouvida do álbum.

Who’s Next retrata muito perfeitamente o que tinha se transformado a banda. É um álbum visceralmente pesado e que transparece dor, sofrimento e ao mesmo tempo, alívio. A agressividade, inventividade e a tristeza estão misturadas em todas as faixas, entre as baladas e os rocks espetaculares. Se percebe de imediato um disco renovador, revigorante, denso, com todos os integrantes no seu ápice técnico e colocando tudo nas músicas. Tenho a certeza de que se eles tivessem insistido na tal Opera Rock, o The Who que passamos a conhecer em 1971, nunca teria se mostrado como se mostrou neste disco épico e fundamental para qualquer um que gosta de Rock and Roll. As músicas todas são excelentes, e com uma personalidade totalmente diferente de tudo o que a banda havia feito até aquele momento. Há as canções que na minha opinião são desequilibrantes e que fazem do álbum uma verdadeira obra prima. Baba O’Riley, Behind Blue Eyes e Won’t Get Fooled Again são desbundantes e fazem você pirar. Elas são realmente fantásticas!


FAIXA-A-FAIXA

Achei que era merecido falar de cada uma delas com certo detalhamento, para registrar as percepções que tive enquanto ouvia durante a confecção destas linhas. Claro que já as ouvi milhares de vezes e essa experiência me ajudou bastante agora. Veja você o que nota ao ouvir, e escreva sua própria resenha mental sobre essas pérolas.

Coloque o disco pra tocar e se delicie com os arroubos de loucura rítmica de Keith Moon, com a serenidade angustiante e brilhante de John Entwistle, com as vocalizações inigualáveis e profundas de Roger Daltrey e finalmente, com a inventividade dos sintetizadores e com a guitarra que berra e cuspindo notas que saem de suas cordas, ansiosas por encontrar nossos tímpanos e produzir um impacto demolidor. Pete Townsend conseguiu isso.

O Lado 1 começa já destruidor e surpreendente.

Baba O’Riley:

Inovação na utilização de sintetizadores e sequenciadores que trouxeram ao Who uma sonoridade muito moderna para a época. O solo de violino no final mostra que a banda queria achar algo de novo pro seu som. Essa canção foi a amostra inicial de como as dúvidas, incertezas e discordâncias foram resolvidas ao longo do processo de composição. O riff pesado e a cadência forte, marcante, confere a essa música uma potência que nunca tinha aparecido em nenhuma composição da banda. Ela tem uma linha de baixo sensacional. Os vocais de Daltrey e Townsend juntos são algo notável. E Moon solta o braço e ajuda a dar o verdadeiro peso. Ao perceber tudo isso, vale coloca-la pra tocar de novo, prestando mais atenção e assimilando mais profundamente a harmonia e o peso que ela possui. Abrir o disco com ela foi um tiro certeiro.

Bargain

Muito melódica. A voz de Daltrey encontra um meio termo entre a melodia e uma certa agressividade. Um violão belíssimo e o sintetizador compondo a harmonia da canção, que encontra também um peso no final com um solo marcante de guitarra.

Love Ain’t For Keeping

Um country rock levado pelo violão e a batida arrastadamente maravilhosa de Moon. Os vocais de Daltrey são também destaque, levando a melodia a níveis celestiais. Viradas de Moon e um solo de violão encantam e arrepiam. Entwistle segurando tudo nas 4 cordas.

My Wife

Entwistle compôs, tocou piano e cantou nesse puro Rock and Roll. A guitarra que aparece com aquelas notas descadenciadas e um naipe de metais, dão mais uma vez a diferenciação que a banda buscava. O baixo é pesado e presente. Cheio de “Typewriting” (percussão com os 4 dedos da mão direita nas cordas) e tocado num alto volume como sempre.

Song Is Over

Os pianos de Nicky Hopkins abrem, seguido das harmonias de guitarra e o vocal a cargo de Townsend. Daltrey entra com um vocal mais agressivo e o duo de voz enriquece a melodia. Um solo de guitarra, e depois um de piano e a quebradeira de Moon é puro The Who. Os sintetizadores crescem do meio pro fim dando a música uma característica diferente, com efeitos que transformam uma balada normal numa canção com variações, tempos, acelerações e uma veia progressiva.


O Lado 2 do vinil começa mantendo o nível alto das composições.

Getting In Tune

Uma das mais lindas músicas do Who. O baixo é inacreditavelmente criativo, o vocal melódico, o piano perfeito, novamente a cargo de Nicky Hopkins. As batidas de Moon e suas viradas interminavelmente fascinantes e a guitarra solando e harmonizando todo tempo são de chorar… ahhh, os backing vocals aqui são uma aula e a aceleração da cadência com todos juntos no final é algo que te faz querer balançar a cabeça sem parar!

Going Mobile

É mais uma canção com uma levada country cantada por Townsend e embalada por sua viola e o baixo segurando tudo pras viradas insanas de Moon. Em certo momento entra um sintetizador belíssimo dando aquela quebrada na cadência. O solo de guitarra é espetacular, e junto com ele, a música cresce até um ponto que volta a ficar melódica. E isso fica se repetindo… é uma maravilha!

Behind Blue Eyes

O que falar desta música? Ela é uma das faixas mais inacreditáveis e maravilhosas que já se compôs. Ela é completa! Descreve-la é perda de tempo. Você tem que ouvir e ouvir, porque ela não deveria acabar nunca. Você vai sentir a melodia, o baixo desconcertante, o dedilhado do violão, a levada de Moon quando ela explode… suas fibras menos sensíveis vão ccontrair e te fazer sonhar e se emocionar.

Won’t Get Fooled Again

Estamos tratando aqui de uma das canções mais sensacionais que uma banda de rock já compôs. Ela tem 8 minutos e 31 segundos e pura inventividade. Os sintetizadores no início trazem um suspense, a guitarra agressiva de Townsend entra junto com as batidas destruidoras de Moon e produzem uma sensação de empolgação instantânea. Daí você vai percebendo que as linhas de baixo dão a sensação de estarem sendo entoadas de dentro para fora do seu corpo. Entwistle faz com seus dedos da mão esquerda no braço do baixo funcione como um slide, não a toa, é considerado por muitos o maior baixista de todos os tempos do Rock. Nesse momento, sua cabeça já está balançando e a imersão total já aconteceu. Os solos de guitarra de um dos maiores guitarristas de todos os tempos, os teclados dando a base, o groove de Entwistle, o piano incidental e preciso pra enriquecer a melodia, acordes de violão, os vocais e gritos sacrosantos e magistrais de Daltrey… tudo isso vai te deixado de olhos arregalados… e o braço direito de Townsend continua a girar, girar, e girar… pra sempre…


O QUE DISSE A MÍDIA?

Não é a toa que o álbum é aclamado pela crítica até os dias de hoje. Em 2003, a Rolling Stone classificou o álbum em 28º lugar em sua lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos, mantendo a classificação em uma lista revisada de 2012, e 77º em uma lista revisada de 2020. O álbum apareceu em 15º lugar na lista dos 100 melhores discos da Pitchfork Media da década de 1970. Também foi incluído no livro 1001 Álbuns Que Você Deve Ouvir Antes de Morrer (2005).

A série de documentários Classic Albums da BBC exibiu um episódio no Who’s Next, inicialmente no rádio em 1989, e depois na televisão em 1998, que foi lançado em 2006 em DVD como Classic Albums: The Who – Who’s Next. Naquele ano, o álbum foi escolhido pela Time como um de seus 100 melhores álbuns de todos os tempos. Em 2007, foi incluído no Grammy Hall of Fame por “duradouro significado qualitativo ou histórico“.

Resenhando para o The Village Voice em 1971, o crítico musical Robert Christgau chamou Who’s Next o melhor álbum de hard rock dos últimos anos” e disse que, embora suas gravações anteriores fossem marcadas por um som fraco, o grupo agora “atinge o mesmo imediatismo ressonante no estúdio que ele faz ao vivo “.

Depois do brilho único de Tommy, algo especial teve que ser pensado e o fato de que eles se estabeleceram para um álbum direto, em vez de uma extensão de sua ópera rock, diz muito sobre sua coragem e inventividade. “

Billy Walker da Sounds

John Mendelsohn, da revista Rolling Stone, sentiu que, apesar de alguma seriedade e artificialidade, a marca de rock and roll do álbum é “concebido de forma inteligente, executado de forma soberba, produzido de forma brilhante e, às vezes, até excitante”.

No final de 1971, o disco foi eleito o melhor álbum do ano no Pazz & Jop, uma pesquisa anual de críticos americanos publicada pelo The Village Voice.

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