Memória do Rock Brasileiro: Serguei

A pesquisa é uma das principais forças motoras para historiadores, arquivistas, museólogos e sim, para jornalistas/redatores de sites/revistas/jornais. O Rock nasceu nos anos 50, e como um bom amante desta arte clássica, nos encontramos nessa parte da vontade de descobrir, entender e explorar, não só os porquês dos sucessos e insucessos, mas também conhecer melhor um artista, seja ele de renome ou não, um pouco conhecido ou que só você leitor conhece de fato. Bem, através de entrevistas – principalmente as que deixam os artistas a vontade – ganhamos respostas. Ela pode nem ser sempre a almejada, as vezes pode ser surpreendente, divertida, abusada ou decepcionante.

O MIS (Museu da Imagem e do Som) desde o seu início promoveu o que chamam de “depoimento para a posteridade” e dentro desse gigante acervo, surgiu a possibilidade de ter artistas de referência e peso fazendo o seu relato no que foi chamado de “Memória do Rock Brasileiro”. Comandado por Carlos Alberto Pavão e tendo o apoio de pessoas como Sergio Augusto Bustamante, o programa teve suas edições no ano de 1985, um tempo antes do Rock In Rio.

No dia 9 de janeiro de 1985 foi gravado o depoimento do icônico Serguei, uma figura que ao você entrar no contexto rock no Brasil, logo capta que é uma das grandes referências. Todavia, não se trata de um artista que conseguiu um reconhecimento pelas suas músicas, sendo marcado mais por sua atitude, aparência e perto do fim da vida, por sua saúde e pela sua morada, o santuário do rock. Felizmente, no ano de 85 ele estava de volta a crista da onda e de uma maneira bem humilde e sincera relatou detalhadamente sua jornada até chegar ao convite do MIS.

OBS:

Essa é uma matéria especial que tentaremos fazer ao menos uma por ano com artistas brasileiros de nossa vasta cultura. Então é possível que venha aparecer nomes que não estão ligados ao Rock necessariamente.
Para fazer qualquer audição de algum arquivo do Museu da Imagem e do Som é necessário entrar em contato com a instituição por e-mail colocando no assunto o artista ou tema de seu interesse. Como fizemos pela filial do Rio de Janeiro é importante entrar em contato com a instituição através das redes sociais pelo instagram.


Serguei teve sua imagem ligada a de um “doidão”, que foi colocada ao deboche pela mídia nos últimos anos, quando foi novamente “resgatado” na década de 2000 até o dia de sua morte em 2019. Seja por ele ser a personificação do gênero, por ter seu próprio templo do rock – que era sua casa em Saquarema no Rio de Janeiro na Região dos Lagos, que foi revitalizado e ganhou um novo espaço com o conceito de pub inglês da década de 1960. Todavia, seu depoimento pro MIS traz uma lucidez que confesso, foi um choque interessante.

Com a consciência bastante apurada e honra, estou vivendo a coisa mais importante que já me aconteceu em 21 anos de carreira.” Assim Serguei inicia seu depoimento sincero que na maior parte do tempo traz ares nostálgicos que nos transporta para o seu início no Rock até aquele ponto em que acompanhava-se o seu renascimento.

Antes de começar a falar sobre sua jornada, em dado momento o cantor que já foi comissário de bordo dá uma humilde declaração ao falar que “todos temos um brilho próprio, que todo mundo nasce uma estrela e que dispensa a necessidade de gravar um disco ou aparecer na tv.” Ele inicia a falar de si enfatizando ser uma pessoa insatisfeita desde os 08/10 anos. Ele fez o “high school” nos Estados Unidos, completando no Brasil, usando como justificativa principal estar com saudade dos pais e do país de origem. Isso ocorreu nos anos 60, o que para um jovem proporciona muitas experiências, principalmente para alguém que tinha uma “vibração muito grande” em Elvis e Ray Charles.

Como mencionado, Serguei foi comissário de bordo. Tal profissão foi levada com seriedade por 8 anos nos EUA. Lá ele viveu o que chamou de “uma doutrinação no sentido material” de obter um emprego importante. Mas, sua alma rebelde fez com que fosse expulso da Varig após ter cantado em boates de Madrid, a Lolobrigida e a Art Bocouls. O chefe de departamento não gostou nada e o abordou dizendo: “Como você é dono do seu destino, eu sou o da Varig, então você está demitido.”. Em resposta, Serguei foi poético:

Não quero algemas no meu cérebro, sou uma pessoa tão livre quanto uma pessoa humana pode ser. Cultivo muito leminski!

Com a saída da Varig, Serguei começou a investir em sua carreira musical. Ele colou com o empresário e músico Ed Lincoln responsável pelo álbum “A Volta” e outros mais na onda da Bossa Nova e samba. “Ele dizia que minha carreira seria meteórica porque me achava vazio, louco, descabelado, com lentes de contato azul. Ele errou porque são 21 anos que estou na história.”.

Serguei gravou seu primeiro álbum As alucinações de Serguei em 1966 acompanhado da banda The Youngsters que tinha Sérgio Becker no Saxofone. Eles foram os responsáveis por gravar o hit atemporal da Jovem Guarda, Quero que Vá Tudo Pro Inferno, em 4 canais. O álbum possui a música que para Serguei mais chama a atenção. Em seu depoimento ele diz que gosta de Eu não Volto Mais, composta por Orlandivo e Ed Lincoln, por ela ter um efeito de disco voador no final e os dizeres no refrão “Eu não volto mais, eu não quero mais, vou fazer assim, Eu prefiro a morte sorrindo do que ter a vida chorando.


Após o lançamento, seu disco apareceu na rádio Tamoio. De lá foi escalado para o programa da Jovem Guarda onde conta que foi aplaudido de pé, o que deixou ele atônito. Cumprimentou diretores da “Chicletes Árabes” e distraído saiu por onde tinha entrado, pela mesma alameda, dando uma testada em José Abelardo. O que deixou os produtores putos apesar da recepção fervorosa do público presente.

Apesar deste desentendimento com os mandachuvas, Serguei conseguiu fazer 25 programas do Flávio Cavalcante, gerando uma forte polêmica frente a high society intelectual de Copacabana. Usando as palavras de Millor Fernandes, “se expor ao ridículo“. Mas para o acima de tudo performático artista o que ele fazia era “expor a mercadoria“.

Era euforia, eu abria os braços, requebrava os quadris, pintava a cara. Usava roupas com penas, calças com escamas, gargantilha. Sempre fui chegado na excentricidade. Eram músicas irônicas e fortes. O verdadeiro artista você conhece no palco.

Serguei

A fama chegou no início dos anos 70, na época da tropicália em alta, por ter gravado uma versão para a música Summertime, famosa na voz de Janis Joplin. Nessa época ele fechou com a Polydor para participar do compacto Ouriço/O Burro Cor De Rosa de Nelson Motta. Serguei conseguiu os links e se apresentou no Programa Silvio Santos levando o público ao delírio após fazer o “V” com os dedos, gesto relacionado a paz que o cantor explica ser o “V” da vitória usado por Winston Churchil ao final da 2ª guerra mundial e que ele classificou como um símbolo jovem, Silvio gostou da ideia e pediu para todos do público presente fazerem o sinal.

Serguei ficou 45 minutos no programa, seminu. Tal entretenimento o levou a ser convidado a tocar na tv Globo e na Record sendo chamado não só para cantar e tocar rock, mas também para dar opiniões e falar sobre temas, um deles em especial sobre a “filosofia hippie” explorado pelo programa de Antônio Marcos. Isso fez com que sua popularidade ficasse abalada, com Silvio Santos chegando a explicar ao cantor: “A censura se incomoda com sua causa.“.

Para revista Realidade Serguei se expressou:

“Eu achava que a Liberdade era tão importante que estava acima da autoridade. (…) Isso aqui não é uma fazenda e eu não sou gado, isso aqui é um país e eu sou povo! Então daqui pra fora ninguém me bota, só morto!”

Mas como tinha dupla nacionalidade, resolveu voltar para a casa da avó nos EUA porque também não o interessava ficar em um lugar que “a pessoa fica me cortando, eu não ter o direto de ser eu mesmo é ridículo!”. Isso foi em 1974, Jimi Hendrix e Joplin já tinham morrido e o rock estava sem grandes heróis e os negros tomaram a dianteira com a disco music. Serguei ficava por Long Island, por onde fazia shows. Em 1977 ele recebeu um elogio inesperado da cantora Debbie Taylor que presenciou um show seu. A diva da década de 70 disse ao The Good Times que “com músicos melhores por trás, logo ele conseguiria melhores lugares para tocar“.

Após isso, voltou ao Rio tendo seu retorno sendo promovido pela rádio Fluminense FM para um show no Circo Voador. Ele também virou artista particular dos Hells Angels que tinham uma de suas sedes nas terras tupiniquins. Gravou um disco que considera Heavy Metal, o que o fez conversar com a geração dos anos 80 que aos olhos do cantor eram bem similares a juventude da década de 60. Como a entrevista foi feita antes da primeira edição do Rock In Rio, o impacto dessa observação é bem forte assim como as falas a seguir.

O rock, antes de ser um gênero musical, é um estado de espírito. É beleza, é cor, é ritmo, é beleza acima de tudo. Eu sou uma figura Rock ‘and’ Roll!

Essas falas vieram logo após o músico dizer que considerava o Rock In Rio um “festival de rock internacional” e que na parte nacional ele achava que estava pautado apenas a “música popular nordestina com alguns convidados do rock, dentre os quais ele não estava”.

Bom lembrar que Alceu Valença, Baby Consuello & Pepeu Gomes, Elba Ramalho, Gilberto Gil e Moraes Moreira foram as atrações brasileiras nordestinas e Barão Vermelho, Blitz, Eduardo Dusek, Erasmo Carlos, Ivan Lins, Kid Abelha, Lulu Santos, Ney Matogrosso e Os Paralamas do Sucesso, são essa parte “roqueira” mencionada por Serguei. O equivoco de não ser convidado para o primeiro RIR foi consertado e o cantor pode fazer parte do line up da edição de 1991 e ser convidado pelo Sylvinho Blaublau pra subir ao palco em 2001.


Em tom satisfatório, humilde e até meio melancólico, o cantor faz uma declaração comovente ao falar do seu papel como músico e a experiência de estar a tantos anos na estrada, já em 1985.

21 anos não são 21 dias, então recebi o maior troféu que um músico pode receber que é o aplauso do público. Em seguida vem o respeito que me levou a ser entrevistado para ser representante do rock e falar sobre aqui pra vocês do MIS(…) A vida do artista é linda mas é dura, e ele tem que ser mesmo um artista para segurar essa barra e continuar com o trabalho, eu desejo dar-se um destino muito grande a todos que pretendem continuar no rock ‘and’ roll!

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