Review: Cassia Eller e Victor Biglione – Cássia Eller & Victor Biglione in Blues

Cassia Eller completaria 60 anos de vida no último dia 10 de Dezembro, e apesar dela não estar mais entre nós desde 2001,escutar sua voz em um lançamento, ainda mais um com 100% do material sendo inédito, dá um frescor e traz uma felicidade incalculável.

Roani Rock

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Data de lançamento: 10/12/2022
Gravadora: Universal Music

Gênero: Blues
País: Brasil


Quem acompanhou os shows da Cássia Eller antes da fama sabe muito bem que ela sempre foi fã de blues e seu repertório era menos pop radiofônico. Então não é de se surpreender que independente do repertório desse disco feito em parceria com o excelente e histórico guitarrista Victor Beglione ser repleto de alma, a forte e potente voz de Cássia seria o grande destaque. Gravado a 30 anos atrás e arquivado pela gravadora, Cássia Eller e Victor Biglione in Blues é uma nostálgica oportunidade de ouvir a Cássia em seu habitat natural.

A história é a seguinte, Victor Biglione que é um guitarrista argentino radicado no Brasil desde a infância, percebeu que Cássia Eller tinha o blues quando a ouviu citar I’ve got a feeling (John Lennon e Paul McCartney, 1970) na introdução da balada Por enquanto (Renato Russo, 1985) em gravação feita para o primeiro álbum da cantora, Cássia Eller (1990). Tanto que, em 1991, Biglione a convidou para ser a intérprete do disco de blues que planejava fazer no Brasil. Ele foi gravado durante esse período de 1991 e 1992, mas as razões pelas quais ele não foi lançado são confusas.

“Acho muito oportuno lançar este trabalho agora. É uma maneira de festejar o que foi a vida dela nessa data tão importante. E mais especial ainda por ser um álbum de blues, que representa muito bem a minha mãe, um disco muito legal de releituras com o Victor Biglione numa pegada muito diferente”, destaca o cantor e compositor Chico Chico, filho de Cássia.

Escutando o álbum e lendo os depoimentos sobre a obra feitos por Beglione, nota-se que os arranjos feitos pelo guitarrista queriam realmente sair da mesmice e não tinham a intenção de “respeitar” o original. A voz da Cássia e sua interpretação fazem os clássicos terem uma nova dona também. Em (I’m Your) Hoochie Coochie Man temos algo ainda mais sacana do que Muddy Waters, o compositor e interprete da obra original, poderia executar com tamanha sagacidade. O impressionante em Got to Get You Into My Life, clássico presente no álbum Revolver dos Beatles, é que a roupagem oitentista lhe caiu muito bem e o cantar da Cássia saiu divertido, ela passa estar se divertindo cantando. Ela foi inspirada na versão do Blood, Sweet & Tears.

Se tem como fazer uma observação negativa frente a algo tão bom, eu realmente não curti as baterias do álbum por ter uma pegada dos anos oitenta, com muito eco. Mas não significa que foram mal tocadas ou algo assim, só a estética mesmo. A faixa Same Old Blues de Don Nix lançada originalmente em 1969 e a balada When Sunny Get’s Blue de Marvin Fischer e Jack Segal, lançada em 1956, ficaram emocionantes numa mediada inexplicável, Cássia aqui se equivale a Etta James com honestidade e propriedade, já que se trata de um standard jazzy da canção norte-americana.

O primeiro Meedley contempla bem a galera que participara do projeto junto a Biglione e Cássia, o tecladista Ricardo Leão, Marcos Nimrichter (órgão), André Gomes (baixo elétrico), Nico Assumpção (baixo acústico), André Tandeta (bateria), Zé Nogueira (sax-alto e soprano), Chico Sá (sax-tenor), Zé Carlos Ramos (sax-alto), Bidinho (trompete) e Serginho Trombone (trombone). Em especial, esses três minutos com o pessoal bem entrosado fazem o blues e o jazz se entrelaçarem de maneira gloriosa.

Para o clássico de Hendrix, If Six Was Nine, blues gravado em O marginal (1992), álbum feito na sequência da gravação com Biglione que acabou se tornando o segundo título da discografia de Cássia, dou a palavra ao guitarrista que em entrevista para o Screamyell fez um faixa-a-faixa.

A morte precoce de Jimmy Hendrix abortou sua colaboração com Miles Davis, algo tão desejado pelo lendário trompetista. Neste arranjo, eu me permito arriscar sobre o que poderia vir a ser o resultado desse encontro de um monstro sagrado do rock com outro do jazz, unindo a intrincada sonoridade de Hendrix e o fraseado inconfundível de Miles. Cássia embarcou lindamente nessa viagem.

Victor Biglione

Prison Blues é o momento da virtuose de Biglione vir a tona com a Cássia reagindo em grunhidos vigorosos e apaixonados pelo que ela estava presenciando. Esse foi o blues do repertório gravado da forma mais tradicional. Até porque, afinal de contas se trata de uma música de Jimmy Page com Chris Farlowe, então não tinha porque o guitarrista se segurar e a base tinha que estar forte. Em seguida, indo na mesma pegada, vem I Ain’t Superstitious de Willie Dixon, baseada na versão que Jeff Beck, outro excepcional guitarrista, fez com seu Jeff Beck Group. Os metais aqui preencheram qualquer tipo de buraco que estivesse sendo deixado. Ao meu entender é um dos principais destaques do disco.

I Ain’t Got Nothing But the Blues é o número mais interessante e tem uma carga de desafio, segundo o próprio Biglioni, por ter a conotação do blues rural dada por dois violões e o baixo acústico tocados de forma essencial pelo inesquecível Nico Assumpção. Para este clássico de Duke Ellington a banda parece bem inspirada com Cássia demonstrando versatilidade para se encaixar até nas partes jazziadas, se superando e consolidando como uma de suas melhores performances. O fim do álbum é Biglione em seu brilho máximo fazendo em meio ao medley uma composição sua.

Importante este álbum chegar ao grande público tão carente de bons interpretes. Assino embaixo com o que disse Biglione referente a esse trabalho saindo nos anos 90 podendo dar abertura para a ascensão internacional de Cássia, mas como só pode ser lançado agora, há de convir que ele reforça a falta que Cássia faz não só na música popular brasileira, mas também ao rock nacional. Quem pôde ver um show da cantora em vida é privilegiado, fica para as gerações pós morte o sentimento de tristeza por ter perdido a oportunidade e a compensação por podermos ouvir todos seus registros de estúdio e ao vivo contendo sua voz e interpretação eternizada. Nunca existirá outra como a Cássia!

Nota Final: 9/10

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