Caetano Veloso 80: Caetaneando 18 Rocks

Como vocês bem sabem, fizemos uma lista de músicas do Gilberto Gil que flertavam com o rock para celebrar os 80 anos dele. Acontece que 2022 reservou espaço pra muita gente boa festejar a chegada de tal idade e no último domingo, vulgo 07 de agosto, chegou a vez de prestar reverencia para outro baiano tropicalista que revolucionou a história da música brasileira. O cantor e compositor nascido em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, Caetano Emanuel Vianna Teles Veloso, o filho de dona Canô e Zeca, completa 80 anos. Um leonino perfeccionista e narcisista que leva sua arte muito a sério, de uma forma por horas subversiva por outras “desvirilizante”.

Se falta alguma coisa para falar nesta parte introdutória, dois pontos de sua carreira que foram extremamente rock ‘and’ roll podem servir de ponto de ignição para sua presença em uma matéria aqui do site. Sem falar do fato de que era o líder a frente do movimento contra cultural tropicalista, o seu famoso esporro no Festival Internacional da Canção em 1968, onde usou a famosa frase “Vocês não estão entendendo nada, absolutamente nada!”, incluo aqui aquele momento igualmente histórico junto ao David Byrne (Talking Heads) em que pediu para a MTV botar essa p**** pra funcionar direito!” no VMB de 2004.

Assim como ocorre com Gil, não é fácil fazer uma lista dessas, muita coisa termina ficando de fora já que Caetano tem uma quantidade gigantesca de músicas em sua vasta discografia que flertam com o rock. E não só isso, com composições próprias e reinterpretações memoráveis, além das músicas que ele cedeu para outros artistas com excelentes interpretações. Tivemos que passar o pente fino com muito carinho pra não desmerecer nenhuma fase.

Sua obra é uma das mais completas traduções das belezas e males do país, o que você está prestes a ler é uma lista especial que engloba alguns rocks lançados pelo organizador do movimento tropicalista que chegou a ter sua própria banda de rock para acompanhar suas apresentações. A Banda Cê com quem lançou uma trilogia interessante com rock (de 2006), samba rock (Zii & Zie de 2009) e psicodelia (Abraçaço de 2012). Além de comemorar seu aniversário, em 2022 é completado também o marco de 50 anos de retorno do músico ao Brasil pós exílio forçado, onde voltou com seu disco que passou de cult para mais popular, o Transa de 1972.

Caetano em termos musicais não tem barreiras e desde seu primeiro disco, teve alguns sons fortemente inspirados no rock para poder transmitir suas ideias. Dito isso, sem mais delongas, separamos 15 músicas para contemplar toda grandeza do voraz músico, escritor, ativista político e um dos artistas mais importantes da história da música mundial.


TROPICALIA

A começar com essa faixa determinante para todo o movimento, praticamente o hino do movimento tropicalista. Essa faixa é rock ‘and’ roll pelo fato de trazer um conceito tão subversivo. Encontrada no disco Caetano Veloso de 1968, ela retrata uma posição clara contra a ditadura militar da época e a posição de líder de Caetano para o que estava rolando no mundo artístico. Musicalmente, o começo psicodélico com as falas introdutórias com batucadas e em seguida, quando entra a intensa orquestra temos a certeza que algo novo estava acontecendo, uma nova música que fugia do samba e MPB.


ALEGRIA, ALEGRIA

Esse foi um verdadeiro clássico, o maior hit do álbum de 1968. O nome da música lançada em 1967 através do II festival da canção veio de um bordão que o cantor Wilson Simonal utilizava em seu programa na TV Record, Show em Si… Monal. A inspiração principal da obra foi a música A Banda de Chico Buarque, que havia concorrido no festival da Record de 1966. A letra possui uma estrutura cinematográfica, conforme definiu Décio Pignatari, trata-se de uma “letra-câmera-na-mão”, citando o mote do Cinema Novo. Caetano ainda incluiu uma pequena citação do livro As Palavras, de Jean-Paul Sartre: “nada nos bolsos e nada nas mãos”, que acabou virando “nada no bolso ou nas mãos”. 

Há muita influência dos Beatles em seu arranjo já que Caetano queria que seu som conversasse com a música pop  contemporânea lidando com elementos da cultura de massa da época. Quem acompanha o baiano no disco, foi a banda argentina Beat Boys que fez muitas apresentações com os artistas que fizeram parte do movimento tropicalista.


SUPERBACANA

Mais uma faixa do maravilhoso disco de 1968. Parecendo um tanto com uma marcha de carnaval, Superbacana traz uma cadência até o refrão carnavalesco que recebe uma dinâmica do rock da época. Uma música poderosa que possui menos de um minuto e meio; penso muito no The Lovin’ Spoonful escutando essa primeira fase do Caetano.

Posso estar sendo até um tanto equivocado em taxar essas músicas do disco de 1968 como rock, até porque Caetano falou que o que ele pretendia com esse novo tipo de som era trazer um pouco mais de cultura brasileira e não americana como pode ser notado em sua fala:

Preocupado com as coisas que Tom, Vinícius e João Gilberto formularam, resolvi usar seus métodos na pesquisa de nossas raízes folclóricas. Daí em diante mudei pouco, pois já havia abandonado a preocupação formal da bossa nova, e queria fazer música brasileira, mesmo sem as pesquisas de harmonia e de forma poética […].

Caetano Veloso para Narciso Kalili, 1966

O LP foi eleito em uma lista da versão brasileira da revista Rolling Stone como o 37º melhor disco brasileiro de todos os tempos e teve arranjos de Júlio Medaglia, Damiano Cozzella e Sandino Hohagen.


DIVINO MARAVILHOSO

Cantada no original por Gal Costa, a poderosa faixa é mais um dos marcos do movimento antropofágico da tropicália. Ela traz um posicionamento ferrenho do cantor e compositor baiano contra a ditadura militar.

Por terem a visão de Gal como a musa do movimento e ser uma grande chance evidenciar o talento da cantora, Caetano sugeriu que ela participasse da quarta edição do Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record (também de São Paulo) com a canção “Divino, Maravilhoso”, e Gil se propôs fazer o arranjo. Gil perguntou como Gal queria cantar a canção, e a cantora explicou que queria cantar “de uma forma nova, explosiva, de uma outra maneira”, mostrando “uma outra mulher”“uma outra Gal além daquela que cantava quietinha num banquinho a bossa nova”.


PROIBIDO PROIBIR

Nessa que ocorre o esporro citado na introdução do texto. Segundo Caetano, sua fala foi para defender a música É Proibido Proibir e a apresentação de Gilberto Gil, no Festival Internacional da Canção, em 1968. Neste dia Caetano estava acompanhado dos Mutantes que potenciaram o clima caótico com os teclados e as guitarras distorcidas.

Cabe colocar alguns trechos desta fala poderosa de Caetano aqui, ela mostra a diferença entre os dois amigos conterrâneos que dividem não só a mesma idade, mas também estilo de som e de mentalidade sócio-política. Penso que Gilberto Gil é o cara divertido e o Caetano é o afrontoso, aquele que leva a questão do embate de forma mais enérgica. Então, aqui algumas partizinhas do esporro inflamado que você encontra completo no Spotify e no youtube com o título de ambiente de festival (e Proibido Proibir) e também coloco a versão original do maravilhoso “dedo na ferida” frente a censura, a música é Proibido Proibir.

“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?
Vocês tem coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado. São a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem… Vocês não estão entendendo nada, nada, nada!
Absolutamente nada! Hoje não tem Fernando Pessoa… Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival, não com o medo que o Sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem. Quem teve essa coragem de assumir esta estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e eu! Vocês estão por fora! Vocês não dão para entender! Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? (…) Mas eu e o Gil já abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso! Eu quero dizer ao júri: me desclassifique, eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso! Gilberto Gil, Gilberto Gil está comigo pra nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil!”


A VOZ DO MORTO

presente no CD Cinema Olympia (2006), em Zii Zie: MTV ao vivo (2011) e na trilha sonora do filme Tropicália (Marcelo Machado, 2012). Mas a primeira versão dessa música compõe o disco de Caetano gravado na boate Sucata junto com os Mutantes, Caetano Veloso e os Mutantes ao vivo(1968).

Ela foi composta a pedido de Aracy de Almeida para a I Bienal do Samba naquele ano, idealizada pela TV Record, e saiu no compacto simples da cantora, intitulado Bienal do Samba (1968). Caetano tentou se inscrever nesse festival, mas foi impedido de participar com a justificativa de que não era sambista e que iria “esculhambar” com o certame. Já Aracy de Almeida inscreveu um samba que foi desclassificado. Diante disso, nasceu a ideia de fazer uma música provocativa à Bienal do Samba. Segundo relatou Caetano:

Assim como “Baby” me foi sugerida por Bethânia, “‘A Voz do Morto” me foi ditada pela Aracy de Almeida. Ela estava em São Paulo para fazer a Bienal do Samba, que era um festival só de sambas, e estava muito irritada com a ideologia em torno daquilo. Ela veio falar comigo: “Pô, me tratar como glória nacional pensando que vão me salvar? Puta que o pariu, salvar o caralho! Estão pensando que vão salvar o samba na televisão? Salvar o caralho! Quero que você faça um samba porque você que é o verdadeiro Noel, porque você é violento, você é novo!” Era assim que ela falava para mim: “Eu já estou por aqui, de saco cheio” — e ela pegava, como se tivesse saco mesmo —; “Eu estou de saco cheio desse negócio de Noel Rosa, ter que arrastar esse morto pelo resto da vida. Quando eu canto é a voz desse morto! E ninguém me engana com essa porra não, de festival do samba. Faça uma música da pesada para eu gravar, esculhambando essa porra toda!” Ela me ditou o samba! Fiz essa música, ela adorou e gravou.

Esse trecho sobre a música foi tirado da analise da pesquisadora Daniela Vieira dos Santos que usou a música como estudo de sua tese na Universidade Estadual de Campinas onde chegou a conclusão que “surgiu essa canção que igualmente formaliza o luto com relação aos ideais de esquerda e às políticas culturais nacionais-populares ligadas a eles. “A voz do morto” reavalia a tradição da música popular brasileira, especialmente a tradição do samba, propondo outro tipo de canção ao país. Na linha do tropicalismo, a canção ainda realiza uma paródia ao consagrado samba de Zé Keti, A voz do morro (1955)”.


YOU DON’T KNOW ME

Primeira música do álbum Transa a aparecer por aqui. Em 13 de dezembro de 1968 é decretado o Ato Institucional Nº5 e uma forte repressão por parte dos militares chega para Caetano e Gil que tinham espetáculos na boate Sucata no Rio de Janeiro que não eram bem apropriados para reacionários moralistas, sem falar do programa Divino Maravilhoso onde os tropicalistas podiam fazer tudo que vinha na telha. Eles foram presos de dezembro de 1968 até fevereiro de 1969  julgados como subversivos porque tinham músicas libertárias. A Polícia Federal ofereceu uma alternativa à cadeia, onde ficaram três meses: sair do país.

Nunca quis morar fora do Brasil. Ser exilado me deixou meio deprimido. Lembro-me de que um cara da Polícia Federal (acho que era da PF: tudo relativo a nossa prisão e exílio era muito desorganizado e obscuro) me levou até dentro do avião e me disse: ‘Não volte. Se voltar, nos poupe do trabalho de um dia procurar você’. Numa ida a Paris, já no segundo ano de exílio em Londres, a 12 abaixo de zero, chorei na rua e cantei, aos berros, Apesar de você .

Esse álbum repleto de amargura e saudosismo representa o sentimento de estar no exílio forçado ao qual foi submetido, onde ficou em Londres junto a Gilberto Gil. Por mais que tenha gerado o álbum mais apreciado de sua carreira e ter se tornado cult, não é como o Expresso 2222 de Gil que soa muito brasileiro e solar, Transa tem uma aura britânica até nos sambas que o compõem, um céu cheio de nuvens cinzas.

Aqui está um som em inglês, que possui em citação Ave Maria e que deixou a muitos confusos já que a música que expressa o não pertencimento não chega em momento alguma a ter uma conotação religiosa, mesmo que chamar por Ave Maria seja uma súplica.

Talvez faça sentido acrescentar que esse verso de “You don’t Know me” é uma citação de “Reza”, música do Edu Lobo de muito sucesso nos anos 60; o Skank também citou a música nos anos 2000 em “Sambatron”. Talvez (TALVEZ) o Caetano tenha citado “Reza” porque era um hit do Brasil’66 no exterior na época em que ele estava morando em Londres. O Sergio Mendes já tinha feito uma gravação belíssima dessa música em 1965, com a Wanda Sá no vocal. A Wanda, você sabe, se converteu ao cristianismo protestante há alguns anos. 

Ricardo Alexandre, redator e diretor da revista BIZZ, 2013

NINE OUT OF TEN

Mais um som de transa, o disco que representou a volta de Caetano do exílio. Aqui jaz a canção Nine out of ten que tem algumas peculiaridades. Uma delas é o cantor sempre ter achado que esta era sua melhor música cantada em inglês. Outra questão foi ser a primeira vez que a palavra “reggae” aparece numa música brasileira, e compassos desse tipo d música aparecer numa canção que não era de um músico jamaicano. Reggae era o estilo que vinha se consolidando na época e agradou tanto Gil quanto Caetano logo de cara os inspirando em suas obras dali em diante.

Sobre esta canção, Caetano Veloso afirmou, em junho de 1986, no programa “Chico & Caetano”, na Rede Globo, logo após cantar Nine out of ten :

Essa canção que eu cantei fui eu mesmo que compus, eu compus a canção assim mesmo, em inglês, numa língua que não é a nossa, numa época que eu morava em Londres, na Inglaterra.  Porque justo em Londres, estava começando, no bairro onde eu morava, um movimento musical, do pessoal da Jamaica, que me impressionou imediatamente, que veio resultar no reggae, a palavra que já existia, a palavra está dentro dessa canção

A canção faz referência à Portobello Road, em Londres, local onde os os jamaicanos faziam aquela música, o ska, o rocksteady e que Caetano junto a Péricles Cavalcanti adorava andar. Ela indica que por conta do reggae Caetano conseguia ter alguma válvula de escape frente a letargia e depressão do clima londrino ao qual nunca se acostumou.


COMO 2 E 2

Dada de presente a Roberto Carlos em 1971, que gravou para seu álbum do ano em questão com um belíssimo coral feminino e arranjos do compositor e produtor americano James Joseph Wisner. Ela faz uma brincadeira com uma sentença no imaginário popular: “tudo certo como dois e dois são cinco”, querendo expressar algo que não vai bem por meio da incongruência na lógica matemática.

É certamente uma das melhores músicas já feitas por Caetano e impressiona Roberto Carlos ter gravado ela por conta da cautela frente a ele abordar certos assuntos que a música de forma camuflada aborda. Principalmente pelo uso de “tudo vai mal” , “digo, não digo, não ligo / deixo no ar” e “falo, não calo, não falo, deixo sangrar” sem falar no refrão que diz que “tudo em volta está deserto, tudo certo como 2 e 2 são 5”. Duras críticas a ditadura militar que dava certa carta branca a Roberto Carlos.

No seu retorno ao Brasil chegou a executar a canção junto com Roberto num arranjo acústico acompanhados por um gaitista, mas vira e mexe coloca ela em seu set. Por sinal, no último domingo Como 2 e 2 foi responsável por abrir o espetáculo de comemoração de seu octogenário aniversário. Mas, vou deixar vocês com essa versão magnífica que ele fez com a banda Cê em 2012.


TIGRESA

Tigresa, por mais que não possa parecer, me soa como um blues antigo. Lançada em 1977, Tigresa foi a sétima faixa do álbum Bicho, disco inspirado, segundo o próprio Caetano, por uma viagem a Nigéria e pelo choque cultural resultante do que encontrou por lá. Apesar das versões de Gal (que a lançou primeiro) e da irmão do cantor Maria Bethânia serem mais populares, o arranjo de Caetano com o baixo de Arnaldo Brandão, violão adicional e backing vocals de com Vinícius Cantuária são matadores.

A canção certamente bebe das influências tribais, e é mais uma daquelas em que o cantor faz homenagem às suas musas pessoais como confessa nesse relato de 1977:

Mil pessoas me perguntam quem é a “Tigresa”, ou para quem a música foi feita. Pois bem. Depois da mamãe tigresa da televisão, a primeira imagem de mulher que veio à minha cabeça foi a de Zezé Mota, e isso está bem evidente nas unhas e na pele. Mas terminei descobrindo que os olhos cor de mel são da Sônia Braga, embora não deixem de ter um parentesco com os cabelos da menina Maribel. Mas Bethânia e Gal já estavam lá. E Norma Bengell, Clarice, Claudinha, Helena Ignêz, Maria Ester, Silvinha Hippy, Marina, muitas outras meninas que eram bebês em 1966, Suzana e Dedé. Por fim a “Tigresa” sou eu mesmo. É minha primeira canção parecida um pouco com Bob Dylan.

Caetano Veloso, Jornal do Brasil, 1977

Tigresa reflete a inspiração multicultural e sensibilidade de um artista que busca expressar na música sua experiência e a maneira que vê o mundo. Por conta disso, ao falar sobre uma mulher de pele escura que gosta de política e tem traços de felina, o cantor conta um pouco do que acontecia no mundo na época, com os movimentos da contracultura e feminismo ganhando força, além dos debates do movimento negro. Certamente hoje em dia a mulher da canção seria classificada como imponderada.


PODRES PODERES

Finalmente chegamos aos anos 80 e temos aqui Podres Poderes, primeira faixa do álbum Velô (1984). A analise da letra é um deleite a parte, ao mesmo tempo em que é uma canção de protesto na qual Caetano faz uma crítica ao catolicismo e ao autoritarismo no continente americano, questionando “Será que nunca faremos senão confirmar/A incompetência da América católica/Que sempre precisará de ridículos tiranos?”. Há também espaço para enaltecer a diversidade do Carnaval mesmo diante dos homens que exercem os podres poderes, dizendo ser uma festa composta por “índios, padres, bichas, negros, mulheres e adolescentes”.

Além disso, aborda o hábito dos brasileiros de não respeitar o semáforo. Crítica que levou Caetano a ser convidado em 1994 a participar da série de televisão educativa Educação para o Trânsito. Por conta também dessa crítica, as máquinas fotográficas automáticas que flagram os motoristas que avançam o sinal vermelho foram apelidadas no Brasil de “caetanos”.

Em 2017, ao comentar parte de sua discografia por ocasião de seus 75 anos, Caetano descreveu esta faixa da seguinte forma:

(…) [a letra] tem muito a ver com temas ligados ao desejo de que as minhas ações tenham uma função poético-política. Nenhuma ditadura presta. E minhas canções políticas, Podres Poderes entre elas, foram feitas por um homem que jamais perdeu essa perspectiva. Que não está interessado em esconder o sol com uma peneira.


ECLIPSE OCULTO

Aqui está mais um som dos anos 80. Dessa vez um verdadeiro clássico que podemos ligar a três músicos diferentes: a Caetano (autor e interprete da canção), Djavan que é citado logo no início como feitor de “blues” e a Cazuza que junto ao Barão Vermelho fez uma versão da música e que desde então é homenageado por Caetano através dela.

Seu riff é espetacular, a música fala sobre desamores de forma descontraída, onde o eu-lírico diz não conseguir ter um relacionamento com a sua contraparte, mas que quer manter a questão da conquista ainda ativa. Algumas pessoas tendem a crer que é uma faixa tratando sobre a homossexualidade ou bissexualidade de Caetano. Mas, acho que não é necessariamente ele o protagonista da música.


GRAFFITI

Essa aqui é a música mais obscura da lista, é o puro suco dos anos 80 com seus clichês. Acredito que para dialogar com a tendência e surgimento de muitas bandas de rock, Caetano fez ao longo dessa época muitos rocks. Só o álbum Velô, ao qual pertence a música Graffiti, temos uns quatro contando com ela, Shy Moon (som gravado com Ritchie que lembra muito as músicas de David Bowie), O Homem Velho (que aparece num arranjo mais rock e denso na turnê do álbum Cê) e Podres Poderes, já citada anteriormente, completam a seleta lista. E olha que o álbum foi lançado em 1984, um ano antes do Rock In Rio e das bandas novas estourarem de verdade. Vale dizer que Velô até que vendeu bem, com mais de 100 mil cópias no Brasil e ganhando um disco de ouro.

Esse som utiliza da tradicional percussão baiana olodum de Armando Marçal, um saxofone estourado por parte de Zé Luís Segneri, Toni Costa nas guitarras, o brilhante Tavinho Fialho no baixo e por fim Marcelo Costa na batera. o lirismo de sua letra um tanto nonsense traz mais uma vez essa questão da brasilidade que Caetano soube trazer para seu estilo também. Trata-se de um rock de amor.


ROCKS

Como bem disse Carlos Eduardo Lima em sua resenha sobre a trilogia feita para a união do Caetano com a banda Cê para o Monkeybuzz em 2014: “O movimento foi semelhante ao de David Bowie em 1989, quando formou o Tin Machine e resolveu enguitarrar seu som, há tempos imerso em uma música Pop menos visceral (mas com bons momentos ao longo dos 1980’s). Caetano criou sua Banda Cê, composta por músicos mais jovens e conectados com a música feita no Rio de Janeiro dos anos 00, a saber, Pedro Sá (guitarrista, companheiro de longa data, amigo de seu filho, Moreno Veloso), Ricardo Dias Gomes (baixo, piano) e Marcelo Callado (bateria).”

Apesar do texto Carlos Eduardo mencionar do Rocks provavelmente é a música mais agressiva de Caetano sem um contexto político, seu grito inimigo “Você foi mó rata comigo” foi tão intenso quando seu esporro em 1968 nos jovens no festival de música internacional.


ODEIO

Caetano nunca foi roqueiro, mas ninguém soube fazer melhor que ele o uso dos conceitos sem fazer parte e ainda por cima mesclar com outros estilos brasileiros. O que ele fez com os Doces Bárbaros ao lado de Gil, Maria Bethânia e Gal, principalmente na música Um Índio – que bem poderia ter entrado na lista também – , os posicionamentos, a fúria, muita coisa que ele já fez no palco poderia entrar aqui. Mas ele lançou um disco inteiro onde vemos ele usar All Star e jeans nos show, um Caetano pós fim de casamento de longa data com Paula Lavigne aproveitando a solterice ao mesmo tempo o fim de relacionamento, a oportunidade perfeita de ver Caetano entrar de cabeça completamente no rock chegou e deu super certo. A confirmação de que deu certo por sinal veio através de um Grammy latino ao músico ganhar o prêmio de melhor álbum.

Temos ele trazendo uma alma mais jovem ao seu cantar, pulando e levantando a galera como nos anos 60 fazendo contraste com os arranjos feitos pelos jovens de sua banda. A música Odeio é uma dor de cotovelo cantada com muito bom humor por Caetano e é, desde o nascedouro, um clássico do nosso cancioneiro amoroso. Segundo Mautner, dizer “odeio você” é a maneira mais próxima que há de dizer “amo você” e é bem isso o que se trata a canção.


HOMEM

Uma canção sobre ele mesmo, sobre “pauduressência” no básico guitarra, baixo e bateria aliados a seu violão para ele dizer que têm inveja dos orgasmos múltiplos das mulheres ou será que é sua homenagem as mulheres fazendo uma crítica aos homens de uma forma geral? Minha certeza é que é uma das melhores obras presentes nessa lista.

Eu simplesmente amo a letra e arranjo da música bem ao estilo anos 60 da música inglesa e um pouco similar ao que o Doors produzia de blues rock.

Não tenho inveja da maternidade
Nem da lactação
Não tenho inveja da adiposidade
Nem da menstruação
Só tenho inveja da longevidade
E dos orgasmos múltiplos


UM ABRAÇAÇO

Depois do auto intitulado, a banda Cê gravou com Caetano mais dois discos completando assim uma trilogia. Zii e Zie, de 2009, mais experimental e difícil de digerir, com os chamados transambas, ou seja, sambas transpostos para os arranjos minimalistas da banda de rock. Nenhuma música que se destaque e um certo temor para o trabalho seguinte, o maravilhoso Abraçaço(2012).

A faixa que dá nome ao álbum poderia ter sido uma música do Wings com tranquilidade. gosto muito do trabalho da batera e do baixo aqui. A letra até parece simples, mas se lembrarmos o quanto Caetano é um defensor ferrenho da língua portuguesa e as regras do nosso português, vemos o grande desafio que é pegar a conexão de laço com a neologia “abraçaço”. Palavras que tem a mesma fonética foram usadas a torto e a direito que no contexto da música nos traz a percepção que os versos sem ligação só estão ali para servir de base para o refrão sonoro que poderíamos cantar por horas.


A BOSSA NOVA É FODA

Diferente dos trabalhos anteriores ele veio com um álbum psicodélico, em certo ponto tropicalista. Em Abraçaço ele faz uma adequação diante do mundo e de sua mecânica rapidíssima, Caetano parece querer armar uma briga estética a todo o momento, mas em A Bossa Nova É Foda me soa como uma obra de rock progressivo, cheia de nuances com mudanças de andamento, maravilhosa! 


Menção honrosa: ANJOS TRONCHOS

Um dos últimos rocks lançados por Caetano, a canção está presente no seu último lançamento, o álbum O Meu Coco. O clipe é uma onda psicodélica onde acompanhamos a imagem de Caetano refletida por espelhos e água num local completamente em preto. Ela é basicamente uma crítica a sociedade atual.

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