Barão Vermelho Ao Vivo Na ExpoRio: O Rock Ainda é Pop

Por Roani Rock

Os roqueiros, de uns 20 anos pra cá, entraram em uma armadilha devido ao jargão destinado ao rock: o famigerado “sexo, drogas e rock ‘and’ roll”. Ele passa uma ideia de falsa liberdade para ser feito qualquer coisa, e a história mostra que com o tempo só conseguiu gerar prisões e morte.

As décadas foram passando e o conceito do “estilo de vida rock” foi deturpado, pessoas pegaram o rock para promover preconceito musical, isso fez ele deixar de ser apreciado pelos jovens e perder sua essência de representação das minorias e luta contra o sistema. Existe uma dificuldade enorme do rock atingir as massas e as mídias atualmente, principalmente no Brasil. Fazendo com que bandas novas só sejam escutadas por serem de filhos de artistas já consagrados ou só surgirem bandas com pessoas com certo poder aquisitivo.

Mesmo assim, o Rock se recusa a ser gourmet, ele batalha fortemente, mesmo estando nos últimos anos com as principais bandas do rock nacional fadadas a ficar presas nesse universo. Outro ponto para entrar nessa discussão antes de falar do show do Barão, essas bandas não tem culpa dos fãs de sua música serem reacionários, parados no tempo e de um posicionamento político e social totalmente oposto ao que o estilo de vida e musical prega.

Dito isso, vamos ao assunto principal dessa matéria que é o show do Barão Vermelho no evento gratuito da Expo Rio realizado no último fim de semana no Jockey Club na Gávea, onde a consagrada banda carioca foi a responsável por ser a atração principal do último dia.

Foi meu quinto show do Barão Vermelho, segundo com Suricato nos vocais. Um set curto, com um pouco mais de dez músicas, mas bem honesto. A banda soube controlar o público de gerações e reações diversas. Estava do meu lado Lula Zeppeliano, figura icônica do underground do rock e um dos maiores entusiastas do Barão. Com ele junto de mim, vi o bê a bá do rock do Barão que está na sua provável quarta encarnação, com o terceiro vocalista de sua história e o quarto baixista, cargos que desde 2017 são ocupados pelo já citado excelente guitarrista Rodrigo Suricato e por Márcio Alencar.

foto/exibição: Roani Rock

Suricato é irreverente, através da sua técnica com a guitarra e presença de palco cativa a galera. Ele quando fala com o público usa técnicas importantes para incendiá-lo, seja falando que o guitarrista Fernando Magalhães é “o maior gentleman do rock”, quando simplesmente se manifesta com carinho, com gritos e estendendo notas vocais ou simplesmente fazendo solos esmerilhados. Já Márcio não fica devendo em nada ao, Rodrigo Santos e ao Dadi, claramente está se divertindo o tempo todo, música à música. Eles são responsáveis por trazer um pouco de aura mais jovem aos membros do Barão, que apesar de ainda terem muito gás, dificilmente cativam pela imagem mais velha um público mais jovial que procura uma identificação.

O papo do início se torna importante nessa parte da matéria. Por conta de gritos contra o atual governo, uma pessoa do público ficou alterada. Trajando uma camisa do U2, o homem ficou berrando “sou Bolsonaro mesmo” e chegou a ir confrontar a banda indo em direção ao palco falando impropérios, os seguranças contiveram e retiraram o cidadão, mas ficou um certo clima. O setlist clamava por uma música que tivesse algum poder além de diversão, essa faixa veio depois da situação é Cuidado, presente no último disco da banda com Frejat nos vocais. Cantada agora pelo tecladista Maurício Barros, foi a brecha para puxar o coro que rolou intensamente na mesma noite em São Paulo no Lollapalooza, com o músico reforçando que os jovens devem tirar o título de eleitor.

Foto/divulgação: Roani Rock

Os covers são um verdadeiro tributo ao rock nacional. Duas músicas do Cazuza na carreira solo são cantadas, O Tempo Não Para e Exagerado que se o cantor não tivesse saído do Barão provavelmente teria desenvolvido com os caras, os arranjos são sensacionais. Homenagem a Legião Urbana ocorre em Quando O Sol Bater na Janela do Seu Quarto, assim como Angela Ro Ro encarna em Suricato na balada blues Amor meu Grande Amor e o samba de Bezerra da Silva que aparece em Malandragem Dá Um Tempo que também foi um momento bem político.

Foi bom ver tantos hits, dos primeiros discos teve Ponto Fraco, Por que A Gente é Assim?, Bete Balanço, Eu Queria Ter Uma Bomba e o gran finale com Pro dia Nascer Feliz, a Satisfaction do Barão. Da fase mais hard rock da banda teve Pense e Dance -provavelmente na melhor execução da música pela formação atual – e Meus Bons Amigos, que pra mim tem o refrão que mostra a síntese dessa nova formação: “O amor sem fim não esconde o medo de ser completo e imperfeito”. Imperfeito porque não há um fã que vá ficar 100% satisfeito com o Suricato, mas ao mesmo tempo, “o rock tem que rolar e ir direto” e ele proporciona isso de uma forma completa, trazendo sua cara para o som de uma banda consagrada.

O show foi muito bem executado pela banda e conquistou tanto a garotada quanto os velhinho classe média presentes no Jockey. Segundo o próprio Suricato, o Barão Vermelho agora é “o futuro repetindo o passado” – fazendo referência a O Tempo Não Para – e tenho certeza que podem se tornar “um museu de grandes novidades” em um bom sentido se trouxerem mais músicas como Por Onde Eu For, faixa presente no primeiro disco de inéditas desta nova formação, que foi tocada animando quem estava presente no Jockey Club.

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