Review: Jethro Tull – The Zealot Gene

Por Roani Rock

As músicas presentes aqui reascendem a paixão pelo que o rock tem de místico, criterioso e impactante. O 22º álbum da banda de Ian Anderson se destaca frente a muita coisa da indústria atual por trazer em letras questionadoras e diretas seu som único que une o sinfónico da flauta as guitarras do rock clássico. Mescla o leve, o brilhante, o firme e é reconhecivelmente Tull, com muito espaço para sua flauta voar

Roani Rock

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Gravadora: Inside Out Music
Data de lançamento:
 28/01/2022

Gênero: Rock
País: Inglaterra


Levando em consideração que são mais de 20 álbuns lançados, é difícil dizer que “não se sabe o que esperar” da consagrada banda de Ian Anderson. Mas exatamente por isso que a qualidade do trabalho sabidamente será inquestionável, The Zealot Gene tem em todas as canções características que tanto se admira no som do Jethro Tull, mas o entusiasmo para ouvir algo novo, após 18 anos sem nenhum lançamento – é seu primeiro álbum de estúdio desde The Jethro Tull Christmas Album (2003), e seu primeiro material original desde J-Tull Dot Com (1999), marcando o maior intervalo entre álbuns de estúdio da banda – faz prevalecer uma excitação a cada canto declamado e cada sopro da flauta, não tem como conter a animação.

Além de Anderson nos vocais, flauta, violão e gaita, a banda conta com Joe Parrish-James na guitarra, Florian Opahle fazendo guitarras também, mas apenas no álbum. Seguimos com David Goodier no baixo John O’Hara nos pianos, teclado e acordeão e por fim o batera Scott Hammond. A banda apresenta músicas que tem aquela tradicional mística do Jethro Tull, com melodias que remetem ao folclore/fantasia da era medieval, histórias de RPG, Terra Média do Senhor dos Anéis e atualmente The Witcher. Tal interpretação fica clara já na primeira faixa, Mrs Tibbets, pra mim a melhor do disco.

O disco traz alguns personagens, além da senhora Tibbets, temos Jacob com seus contos de superstição em Jacob’s Tales que com sua gaita traz uma falsa impressão de ser uma música alegre, sendo que é uma triste faixa sobre tradição familiar e morte. Temos também Shoshana Sleeping, uma personagem bíblica que na canção é uma figura que gera a paixão do eu lírico. Em Barren Beth, Wild Desert John temos citação de outros personagens famosos da bíblia como Maria e Anjo Gabriel. The Fisherman Of Ephiseus traz o meu ver um apóstolo de Jesus, provavelmente Simão/Pedro por este antes de seguir Jesus ser um pescador e ter um trecho da bíblia falando sobre um episódio sobre uma pesca regada apoiada por cristo.

Evocando os escritos bíblicos de uma maneira totalmente diferente do Aqualung, agora com 51 anos, The Zealot Gene é um álbum mais sombrio para tempos mais sombrios. O álbum teve origem em janeiro de 2017, quando o vocalista e flautista Ian Anderson começou a escrever novas músicas e como um novo álbum tomaria forma decidindo que seria um álbum do Jethro Tull porque a formação do grupo naquela época se tornou a mais duradoura de sua história, mas não havia se envolvido em uma gravação de estúdio até aquele ponto. Anderson elabora sobre o conceito do álbum no anúncio do álbum no site do grupo britânico: 

Embora eu tenha um carinho genuíno pela pompa e conto de fadas do Livro Sagrado, ainda sinto a necessidade de questionar e traçar paralelos às vezes profanos do texto. O bom, o ruim e o francamente feios erguem suas cabeças por toda parte, mas são pontuados com elementos de amor, respeito e ternura.

A demora do lançamento se deve ao fato de o trabalho adicional no álbum ter sido suspenso para que Anderson e a banda terminassem os compromissos de turnê em 2018 e 2019, e Anderson sentiu que seria injusto ter o grupo de volta ao estúdio durante os pequenos períodos de inatividade. Em seguida veio o surto da pandemia de COVID-19 e bloqueios subsequentes, o que fez Anderson no início de 2021, “desistir da esperança” e decidir colocar suas partes nas cinco músicas restantes sozinho em seu estúdio em casa.

Certamente o grande hit do álbum é The Zealot Gene, que tece uma crítica firme aos que levam a religião cristã de forma literal ao nível de fanatismo, ficando presos a interpretações distorcidas que culminam em preconceitos e comportamentos que vão contra o que está escrito. Prova disso é o clipe dirigido por Sam Chegini que faz o percurso de um espermatozoide que primeiramente entra na metáfora dos alimentos e depois se forma como humano com cabeça em forma geométrica junto a outros com a cabeça em formato quadrado e triangular. Em função disso, ela ganha essa aura de tocar na ferida tornando-se uma das músicas mais pesadas do álbum.

Uma das faixas mais divertidas, que pra mim é a letra mais interessante do álbum, é a Sad City Sisters. Ela trata sobre duas irmãs que gostam de se embriagar e com isso são julgadas, mas ao mesmo tempo só querem aproveitar o amor o que gera um melancolia observá-las. Para simbolizar o sentimento de pertencimento, carinho e afeição Ian cita Eros e Agápē.

O álbum é conceitual ao estilo vintage de Thick as a Brick com as “imagens idílicas de Songs From the Wood e Heavy Horses. Logo, isso demonstra um retorno bem executado, um esforço notável. Where did Saturday Go? é uma das mais divertidas e filosóficas da novidade. É facilmente a que tem a melodia da flauta mais fluída e interessante. Um de seus trechos na letra diz:

Profundamente lamentável
Um pouco previsível
Levemente implausível
Bastante imperdível
Mas para onde foi o sábado?

A forte The Betrayal Of Joshua Kynde que tem um dos melhores e únicos solos de guitarra do álbum possui muito dessa onda de questionamentos frente Bíblia e o novo testamento, onde dá um arrepio gostoso na espinha, e as três músicas finais, que são acústicas ou semi-acústicas, também. In Brief Visitations é uma linda música de amor, mas Three Loves Three e a que vem na sequência The Fisherman Of Ephiseus, tem um pouco do que se fala sobre a banda ser mais progressiva do que qualquer outro subgênero que se explora no rock, com alternâncias de ritmo e progressão de acordes.

O álbum é consequência de qualidade, são 12 músicas menos erráticas sobre diversos assuntos do que as presentes no último álbum solo de Ian Anderson , Homo Erraticus. Muito bem estruturado, com um setlist fluido, filosófico e de impacto nas letras das canções. Se escolher esse álbum para iniciar sua jornada pra conhecer o trabalho do Jethro Tull não irá se arrepender. Digo isso porque o álbum não soa como eles revisitando a sonoridade do passado, soa como novo, e isso é muito positivo. Diria que está no meu top 5 pessoal da discografia, sem ficar muito atrás do Aqualung. É um privilégio ver Ian Anderson ainda tão criativo e ácido.

Nota final: 9/10

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