80 anos de Roberto Carlos – 10 faixas impressionantes da discografia do “rei”, bicho!

Por Roani Rock

Roberto Carlos completa 80 anos em 2021, ele é uma personalidade do mundo da música que possui muitos rótulos mediante ao gosto de cada um, e este é um “fardo” ao qual ele deve ter ciência de que terá que continuar a carregar até depois de morto. Para boa parte das pessoas que nasceram pós anos 90, ele representa a figura do velho chato que é “descongelado” todo natal para o especial da emissora de tv que o coroou como rei. Para os mais politizados ele é definido como o isentão alienante que possivelmente entregou muitos amigos artistas para a ditadura militar.

Para mostrar que nem tudo são espinhos, aqueles que vivenciaram a adolescência dos anos 60 e curtiram a jovem guarda, tem Roberto Carlos como a cara da juventude, um símbolo de idolatria. Já para um grupo seleto que releva sua vida pessoal e foca em sua discografia, além de músicos de diferentes gerações que o tem como ídolo e amigo, ele é um compositor de mão cheia e um interprete de vigor que nos anos 60 e 70 experimentou diferentes estilos musicais que se te falam hoje que se trata de algo feito por ele, mesmo em caso de baladas, surpreende.

E este é o papel que essa lista vai tentar desempenhar. 80% do que temos aqui é material que você só se conecta escutando a obra, apesar de ter uma ou outra música conhecida, que você já escutou em algum especial dele, aqui trazemos curiosidades e até “teorias da conspiração” para músicas que impressionam não só pela performance de Roberto e suas letras, mas porque suas gravações originais de estúdio são muito fora da curva em referência a arranjos e instrumentos utilizados.

Obs: Essa The Rock List foi idealizada após a leitura da matéria de Marco Antonio Barbosa do site Medium, que teve a coragem de fazer um ranking com todas as músicas do catálogo do Roberto Carlos (que tem ao todo 488 músicas) onde ele ranqueou da pior para a melhor em sua opinião, vale a lida também.

ASTRONAUTA

Resolvi começar com esse som lançado no álbum de 1970, porque é uma das músicas mais hippies e que fogem da temática romântica. Eu imagino uma forte influência de David Bowie e por que não dos Mutantes? A faixa tem uma forte ação desoladora, um sentimento de abandono e vontade real de abandonar o planeta. A Orquestra de Metais e Cordas da CBS faz um show a parte, assim como o grande tecladista Lafayette que será bem comentado durante essa lista.

PRECISO LHE ENCONTRAR

Com esse som de Demétrius, uma faceta de Roberto Carlos diferente da habitual nos é apresentada, a de cantor folk. A versão original já tem uma carga emocional grande, mas a interpretação de Roberto é mais poderosa. Nos remetendo a Simon & Garfunkel, a condução de toda melodia feita pelo violão recebe uma dramaticidade maior quando entra a parte orquestral.

TODOS ESTÃO SURDOS

Criação de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Todos Estão Surdos é um soul/funk que traz na pressão do groovie uma mensagem importante e atemporal principalmente para o povo brasileiro. Gravada pela CBS no disco de 1971 em Nova York, além de contar com sua banda o RC-7, o baixista aqui é Paulo César Barros do Renato e seus Blue Caps e tem o Rick Ferreira conhecido por seu trabalho com Raul nas guitarras.

Tanta gente se esqueceu, que a verdade não mudou, quando a paz foi ensinada, pouca gente escutou. Mas meu Amigo volte logo, venha ensinar meu povo o amor é importante vem dizer tudo de novo” Arrisco a dizer que tem muito mais bedelho do Erasmo na letra, mas de todo modo é um Roberto Carlos se posicionando contra guerra do vietnã especificamente com a base de um pedal wah-wah da guitarra nos “lalararalara”cantado pelo coro feminino.

ILEGAL IMORAL OU ENGORDA

Talvez a última canção rebelde de RC” disse o crítico Pedro Alexandre Sanches em sua matéria analisando brevemente toda a discografia de Roberto. Não poderia concordar mais, principalmente se analisarmos até mesmo o seguimento do álbum de 1976 que só tem baladas. Ela surpreende até por isso, o cantor já tinha entrado nessa linha romântica e infelizmente saia cada dia que passava mais da linha rock e soul. Entretanto, para poder soltar seu grito de revolta mediante a muitas críticas que vinha recebendo pelas questões não só políticas, mas morais frente a sociedade, teve que se voltar ao que particularmente acho que mais combina com ele, uma brasa mora.

AMOR PERFEITO

Essa música composta pelas duplas Michael Sullivan/Paulo Massadas e Lincoln Olivetti/Robson Jorge entra aqui única e exclusivamente pela percepção que tive que sua melodia no refrão é muito parecida com a parte instrumental que ocorre aos 3:32 da música Layla de Eric Clapton presente no álbum feito com a alcunha de Derek And The Dominos. Podem fazer o teste, não estou afirmando que seja a inspiração para a canção de 1986 do rei, porque afinal de contas é toda diferente, não se trata de um plágio. A canção de Roberto tem uma aura mais pura e pop, menos sofrida que o hit atemporal de Clapton que ainda por cima, antes de chegar na parte instrumental criada por Bobby Withlock, se trata de um rock agitado que tem um dos riffs mais marcantes da história do rock ‘and’ roll.

Para contrastar, ainda tem o naipe de metais pós refrão também que faz um diferencial e torna tudo menos fácil de captar, mas vale escutar mesmo que seja pra discordar de mim, porque Amor Perfeito é uma das melhores letras cantadas por Roberto e apesar da versão original não ter um arranjo tão legal quanto as versões ao vivo, tem seu charme moro, bicho?

VOCÊ NÃO SERVE PRA MIM

Essa faixa é rancorosa e pesada, é puro rock ‘and’ roll! Com uma guitarra bem distorcida e os teclados lisérgicos de Lafayette, a arrasador rock de Renato Barros líder do Renato e Seus Blue Caps, se colocado no contexto do filme Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura – que tenta copiar o filme Help! dos Beatles – fica ainda mais impactante. Aquele “vocêêêêêêêê” interminável e esganiçado para um silêncio de segundos até ter a volta do riff matador é a síntese de uma música perfeita.

NÃO HÁ DINHEIRO QUE PAGUE

O ruim dessa música é que ela acaba. Indo bem na linha de Você Não Serve Pra Mim e Todos Estão Surdos, essa canção na verdade preparou terreno para que essas músicas citadas pudessem surgir depois. Vinda do álbum O Inimitável, Não Há Dinheiro No Mundo é a música mais dançante do rei com um belo ritmo dos naipes de metais correspondendo a levada do baixo fazendo um break determinante aos 1:20 minutos. Tem uma excelente versão desse som feita pela Nação Zumbi.

O DIAMANTE COR DE ROSA

Essa aqui é um regozijo melancólico, um número 100% instrumental, raridade nos álbuns de Roberto. Ela não é uma faixa para se ouvir a toa, a tristeza que é transmitida pela gaita e arranjos dos demais instrumentos é tão profunda que trazendo para contexto atual é similar a música da cena de Naruto sentado sozinho no balanço. Não a toa é a faixa do álbum de 1969 onde Roberto Carlos aparece sentado na praia – o único que tem ele de corpo inteiro na capa. Esse álbum é tido como o mais “deprê” de sua discografia.

AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS

Vinda do mesmo disco que Diamante Cor De Rosa, As Curvas da Estrada de Santos pode parecer uma música com base no soul falando de um cara aproveitando uma viagem de carro, mas na real é um som que traz um cara largado pela amada, a magoa aqui só é abafada pela melodia e excelente trabalho nos arranjos dos metais, o mais marcante diante de toda a sua obra. Ela contrasta bem outra canção melancólica que fala sobre como uma viagem de carro pode ajudar a superar um término ou uma rejeição, a música Por Isso Corro Demais.

QUERO QUE VÁ TUDO PRO INFERNO

Em 2021, é difícil compreender o efeito cataclísmico causado por esta canção tanto na carreira de RC. Sua relevância é similar a I Wanna Hold Your Hand ter sido o primeiro número #1 dos Beatles nos Estados Unidos possibilitando a ida do grupo para a terra das oportunidades e Like a Rolling Stone ter proporcionado uma mudança total na trajetória de Bob Dylan, seja pro seu bem ou pro seu mal. Essa música definiu os anos 60 da música popular brasileira e o que foi o movimento da Jovem Guarda. Essa música é de 1965, a desesperança pairava devido as restrições da ditadura, esse grito blasfemador que soa mais como um desabafo de mandar “tudo para o inferno”, apesar de parecer inocente, se olhar com uma ótica mais forçada, incomodou muita gente, muito pai de família de bem e incentivava a rebeldia, então não foi lá um desserviço como muitos pintam para a Jovem Guarda e principalmente o Roberto.

A melodia da canção feita pelo grupo The Youngsters remete a The Mamas And The Papas que estavam na crista da onda por aqui nessa época. Lafayette deixa sua primeira marca dos inspirados teclados aqui e Roberto Carlos como cantor pôde tornar sua voz que nunca chegou perto da que tinha Frank Sinatra, com uma identidade própria e talvez se tornando a mais marcante. A voz de RC é anasalada e não tem nada que se destaque tanto em termos técnicos, isso até se prestar atenção na interpretação, pronúncia e o quanto ela é melódica. Evidentemente, dentro do Brasil, por ser a primeira música que deixava suas características particulares expostas, sem ser uma cópia ou interpretação de uma versão em português de um hit gringo, Quero Que Tudo Vá Para o Inferno é o fenômeno determinante para a carreira de Roberto e que foi o primeiro passo para todo o cenário que surgiria na MPB pós sua coroação como “Rei” feita por Chacrinha.

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