Revisando Clássicos: Pink Floyd – Meddle

Por Luis Rios

Bem vindos a mais um revisando clássicos, aqui analisamos discos atemporais que, de alguma forma, marcaram a história da música de maneira revolucionária. Traremos uma introdução ao álbum contando fatos que o fizeram importante para a carreira da banda, um faixa-a-faixa (excepcionalmente neste reduzido) e, por fim, citações das principais mídias especializadas em reviews


INTRODUÇÃO AO ÁLBUM

Quando se tem a pretensão de analisar um álbum da importância de Meddle do Pink Floyd, é necessário que se faça uma volta no tempo. Mais precisamente na década anterior. Desde o final de 1969 mais ou menos, algumas bandas começaram a mudar a sua música e a sair de um período marcado pela psicodelia e pelas fortes influências do blues e do folk. Esse momento que estava findando era um período de contestações da contracultura vigente na sociedade, desde meados desta década e que continha um ideário altercador que foi fundamental para o crescimento da sociedade européia, e da música que se fazia. A partir destas mudanças, a música trouxe uma abordagem mais elétrica, complexa e virtuosa, sem deixar totalmente de lado as influências citadas anteriormente, mas aplicando nelas uma maior carga erudita. Era o Rock Progressivo e o Hard Progressivo que surgiam com força total. A música deixava de ser só um meio de protestar contra o sistema. Dava-se a ela uma maior ênfase artística. Não se tinha tanta preocupação com as letras contestadoras, mas sim, com uma estética mais glam ou clássica. Era momento de uma estética mais voltada pro som instrumental, com longas “suites”. As letras passaram a ser mais poéticas e de interpretações ambíguas.

O Pink Floyd embarcou no rock progressivo que estava em voga no início dos anos 70 com muita intensidade, mas introduzindo nele a psicodelia trazida da década anterior e com isso, mantendo acesa a influência de seu herói fundador, Syd. Aliás, personagem amado e “seguido” por todos. Bandas como os Beatles passaram por essa transição imparável, bem como outras seminais; Yes, Jethro Tull e King Crimson, por exemplo. Algumas não adentraram na seara do progressivo, como The Who, Rolling Stones e The Byrds pegaram um caminho mais Pop ou Hard Rock e a cena do rock ficou bem diversificada.

Na Inglaterra (centro cultural europeu) e em outras paragens, esse período de mudanças teve seu ápice em 1971. Neste ano, o rock explodiu de vez e se tornou mundialmente grande e influente. A ponte pros EUA aconteceu (sua banda ou sua arte estourava na América e você era conhecido mundialmente e ficava rico) e o gênero se alastrou. O rock era mainstream! Isso se estendeu até meados da década de 1970 e produziu bandas e álbuns simplesmente geniais. Posteriormente o Punk como movimento cultural veio pra quebrar quase que literalmente esse “status quo” da época.

No Pink Floyd (neste início de década), as mudanças foram muito profundas e marcantes, principalmente porque o seu fundador e compositor, Syd Barret, deixou os holofotes de forma traumática e repentina. Todo o processo de loucura e devaneio lisérgico do guitarrista, que durou até janeiro de 1968, quando a banda a caminho de um show resolveu não passar pra pegá-lo, afetou quase que fatalmente o futuro do quarteto. Os outros três remanescentes, Roger Waters, Rick Wright e Nick Mason, além do recém recrutado David Gilmour, precisaram se reinventar como banda e como músicos. Nos álbuns A Saucerful of Secrets (2°, de 1969, já sem a participação de Syd) e no antecessor de Meddle, o belíssimo e controverso Atom Heart Mother (1970), percebemos que foram ficando gradativamente adormecidos os arranjos mais psicodélicos. As maravilhosas e perturbadoras letras de Syd não existiam mais, bem como as projeções abstratas e psicodélicas nos shows da banda foram sendo deixadas de lado. Eles passaram a produzir músicas com arranjos mais robustos, orquestradas, complexas e com mais e mais tecnologia de ponta nos experimentalismos.

Roger Waters passou a escrever quase todas as letras, enquanto David e Rick começavam naquele momento a se entrosar maravilhosamente na criação de harmonias instrumentais e vocais. Mesmo um pouco antes do lançamento do disco , tudo isso já era vívido. Neste período, já tinhamos então sedimentada uma outra banda, que possuia um baterista sem firulas, mas com o ritmo certo e cadência perfeita. Uma harmonia melódica de guitarras e teclados que fluia e crescia naturalmente, e um outro vocalista cada vez mais seguro (Gilmour) e que fazia um contra ponto com Waters nas vocalizações e ajudava nas composições. Por sua vez, o próprio Roger, mostrava com suas letras e personalidade forte, o início de uma liderança.

Depois de “AHM” houve um hiato criativo e a banda entrou no estúdio sem nenhum material para o início das gravações de um novo álbum, no início do ano de 1971. Ao longo dos dias, algumas partes de peças que Rick havia composto no passado foram sendo aproveitadas, melhoradas e finalmente começaram a surgir com arranjos renovados. Assim, começou a nascer o que viria a ser Meddle. Um disco simplesmente arrebatador, melódico e com partes instrumentais riquíssimas. Os músicos também mostravam mais e mais suas evoluções individuais. O exemplo disso é a longa “suite” não muito complexa na sua execução, mas com uma profundidade melódica enebriante, chamada finalmente de Echoes e que toma todo o lado 2 do vinil. Ela foi o que posso dizer, o símbolo do início de uma nova fase da banda. Sim, teve a epopética Atom Heart Mother, mas que foi embrionária neste sentido e muito influenciada e moldada por Ron Geesin, compositor erudito e que levou a canção pra rumos que deixaram os músicos um tanto descontentes. Além de ser dificílima e custosa para ser apresentada ao vivo.

Essa “nova” fase, em breve tempo veio culminar com Dark Side of the Moon (1973) e Wish You Were Here (1975). Álbuns que fizeram do Pink Floyd a maior banda de Rock da galáxia! Mas isso é estória pra outro momento não é mesmo?

Pink Floyd live at Hakone Aphrodite, Kanagawa, August 6, 1971. (Photo by Koh Hasebe/Shinko Music/Getty Images)

FAIXA-A-FAIXA

O “disco da orelha” como ficou conhecido por aqui, tem na capa uma orelha submersa e a palavra “meddle” (“intrometer-se” na tradução) que não está transcrita, pode ser um trocadilho com a palavra “meddal” (medalha em inglês). Não há consenso. Na verdade, percebemos olhando atentamente para o desenho da capa, que ondas sonoras estão sendo captadas pela orelha submersa. Sons dos instrumentos e efeitos sonoros experimentais em todo o álbum aparecem em constante profusão, enriquecendo os arranjos e a capa ilustra isso, penso eu.

One of These Days

O lado 1 do vinil abre com o hard rock One of These Days. Começa com o vento soprando e preparando nossos ouvidos. Na sequência, aparecem os dois baixos sendo tocados, um por Waters e o outro por Gilmour. A psicodelia e o experimentalismo são marcantes, principalmente nos ecos das guitarras, na percussão enfurecida, nos teclados agudos e harmônicos e no solo de David que rasga nossos tímpanos. Nick Mason conduz tudo com uma batida galopante e a utilização da “prataria” de seu “kit” é algo esfuziante. A música “corta você em pequenos pedaços”, de verdade.

A Pillow of Winds

Tudo vai ser rejuntado em A Pillow of Winds, faixa seguinte. “O vento sopra apagando a vela”, diz a letra em algum ponto, mas a chama melódica não se esvai. O violão e a voz macia de David trazem calmaria e a letra de Roger expõe o lado bucólico de ouvir o vento noturno quando se vai dormir ao lado do seu amor e continua a ouvi-lo soprando ao raiar do sol. O baixo apresenta notas “longas”. Um “slide guitar” esplendoroso e um solo de guitarra lindo de Gilmour. A percussão é cadenciada no contra tempo (“hi-hat“) de Mason. O mestre Rick Wright dá suporte com seu Hammond deixando a atmosfera da música pronta pra você sonhar acordado. Uma linda poesia que pode até esconder um certo gosto pelo ocultismo de Aleister Crowley, por parte de Roger. São divagações que surgiram na época.

Fearless

Ao começar Fearless (segundo Mason, uma expressão futebolistica equivalente a impressionante), a transição ocorre na paletada de David, que surge invadindo nossos ouvidos com uma sonoridade emocionante, e prossegue com o primeiro momento do “canto” da torcida do Liverpool. Vocês já entenderão… Waters toca violão e a melancolia se mistura a uma levada bem calma e que vai ficando alegre e agradável, acalentada pelos vocais de David e a batida bem cadenciada de Nick. O baixo acompanha a batida, criando uma base rítmica espetacular. O canto da música You’ll Never Walk Alone de Rodgers e Hammerstein, adotada como hino pela torcida do Liverpool vem também no encerramento da música de forma fantástica e corroborando com a mensagem da letra de Fearless que passa otimismo e pode ser também segundo fontes, uma ode a cidade de Liverpool que tem um viés socialista. Roger e a banda como unidade já davam demonstrações aí de uma admiração por essa ideologia política. A gravação do canto da torcida foi feita em um “derby” entre Liverpool e Everton. É uma canção que não foi usada ao vivo, mas que tem a adoração por quase 100% dos fãs. Por mim inclusive…

San Tropez

Seguindo, vem a balada-jazz San Tropez que gira em torno do que sentiu Waters em visita a cidade da Riviera Francesa. Ela mostra uma influência meio Beatles a meu ver (isso é muito forte em Roger, principalmente a adoração velada dele por Lennon). A voz de Waters encaixa muito bem na canção. Ela chegou pronta. Foi trazida por Roger e nenhum tipo de colaboração por parte da banda ocorreu. A música tem um groove delicioso, um solo de piano encantador e uma atmosfera de verão que deixaria “Brigite Bardot” extremamente alegre. A atriz era “habitue” neste balneário do Mediterrâneo. A Black Strat de David proporciona várias passagens lindas na canção.

Seamus

Seamus fecha o lado 1 dessa grande peça musical floydiana. Temos nela os uivos e latidos ora felizes, ora angustiantes e por vezes lamuriosos do Border Collie de nome Seamus. O “canto” do cão de Steve Marriot (guitarrista e vocal do Humble Pie e antes do Small Faces, amigo de Gilmour) duela com os violões e a gaita de David (ele tinha o cão sob seus cuidados), com o baixo de Roger e com o piano de Rick, num country blues acústico que na época não foi muito bem aceito pelos fãs, mas que hoje, se olharmos o álbum como um todo, podemos dizer que é um grande exemplo do idilismo contido no disco. Meddle tem essa característica muito bem aproveitada e desenvolvida. Segundo Gilmour, ela representa uma reconexão com o passado bluesy do Pink Floyd. Quando a banda gravou o Live at Pompeii, a canção foi apresentada como o nome trocado para Mademoiselle Nobs. A curiosidade é que Roger toca a Black Strat de David e o próprio David só a harmonica (gaita). A música aparece numa versão mais acústica, desta feita.


Echoes

O lado 2 é todo tomado pela épica Echoes. Essa é a musica que mais representa o que é o Pink Floyd. No início da audição, parece que o planeta está nascendo naquele momento. A letra é quase indecifrável ou tem inúmeros significados. Procure os seus. Sem dúvida, essa é uma das melhores músicas já construídas por uma banda de rock, em todos os tempos. Nos primórdios ela foi chamada de The Return of the Son of Nothing, quando tocada ao vivo. Possui muitos efeitos como o som de um sonar de submarino que sai das tecladas de Wright no início, no meio e no final e os efeitos de “cantos de baleias” que são ouvidos saindo da guitarra de Gilmour. Isso aliás, foi descoberto por acaso, quando seu roadie plugou os cabos do pedal wah-wah ao contrário. Esse estranho som saiu de sua Strato e foi percebido e colocado no meio da canção quando muitos “sons estranhos” surgem interligados. Houve muita colaboração entre os quatro músicos desde janeiro de 1971, quando iniciaram os trabalhos de composição desta peça, que pra muitos como eu, é a melhor música feita pelo Pink Floyd (opa… sei que muitos gostam mais de “Shine On You Crazy“. Vamos discutir isso em 2025? Rsrs).

Roger na mesa de som, contribuiu demais. David criou harmonias maviosas, juntamente com Rick. Já Mason, entra com a sua perfeita cadência (vide aquela passagem bem “groove” que aparece mais ou menos no meio da canção). Gilmour uma vez disse que Nick era um metrônomo humano. Echoes começou com uma nota apenas no piano e apartir daí, com adições de outras notas da guitarra de David, uma base rítmica criada por Nick e Roger e finalmente outras partes de Hammond Organ tocadas num aparelho chamado Leslie Speaker, foi tomando corpo. Esse aparelho tem o poder de duplicar sons e transforma-los, criando efeitos dos mais variados. É o que encontramos espalhado por toda a canção. Em 2007, na sua última entrevista, Rick Wright disse que essa canção era basicamente criação sua, mas que esses créditos nunca lhe foram efetivamente dados. David Gilmour posteriormente disse que de fato isso “tinha muito de verdade” e que depois da morte do seu maior parceiro musical, era impossível, sem sentido e sem graça tocar novamente Echoes ao vivo. Era uma simbiose incrível entre ambos no palco!

As guitarras sobrepostas e os solos de David são profusos e siderais. Ele desabrochou completamente neste momento de sua carreira. Os sintetizadores, pianos e bases harmônicas de Rick são intergaláticas. Sendo o Órgão Farfisa preponderante nesta construção. A percussão de Mason é deslumbrante (pratos e os ton tons). O Fuzz Bass (som distorcido do baixo produzido por um pedal com esse nome) de Waters se misturam e produzem ondas lisérgicas de efeitos acachapantes e viajantes. A música é aterradora no melhor sentido dessa palavra! Ela te “afoga” sem roubar seus sentidos. Te proporciona outros sentidos. É impressionante!

Os 23 minutos e pouco de duração desta maravilha tem várias passagens que são uma fartura de harmonias de guitarras, baixo pulsante, teclados dos mais diversificados tons, ecos produzidos pelos riffs sobrepostos e solos da guitarra que te agridem da maneira mais emocionante e catársica possivel! É uma antologia musical com uma letra que leva você a pensar no seu semelhante e ao mesmo tempo te leva a uma subaquática viagem inesquecível e viciante. Os duelos entre Rick e Gilmour, além da levada de baixo de Roger que permeia aquele momento groove da canção já citado, são faces de uma criação que poucas bandas conseguiram realizar ao longo de todos esses anos.

Ela foi a última música a ser gravada pro álbum e eles usaram três diferentes estúdios. Alguns dizem que San Tropez foi a última… Mas não importa! O que verdadeiramente importa é o tamanho do álbum, o impacto que causou sua música nas apresentações ao vivo e posteriormente, as consequências na veia criativa da banda no futuro próximo. Meddle foi um passo introdutório para a elevação da banda a uma fama indescritível e a um “status” mítico no mundo do rock!


O QUE DISSE A MÍDIA?

Quando foi lançado, Meddle recebeu, na generalidade, críticas positivas. A Rolling Stone, através de Jean-Charles Costa, escreveu: “Meddle não só confirma a presença crescente do guitarrista David Gilmour no grupo, mas também que a banda se encontra no bom caminho“. O disco recebeu o disco de ouro nos EUA a 29 de Outubro de 1973 e a dupla platina em 11 de Março de 1994, na sequência da maior atenção dada nos EUA aos sucessos seguintes da banda.

Stephen Thomas Erlewine editor do site AllMusic, chama  Meddle de o melhor álbum dos seus anos de transição que os levaria a The Dark Side of the Moon, pois “grande parte do seu tempo contém texturas sónicas e longas composições, nomeadamente no clássico épico de encerramento, Echoes”. “Tom uniforme, mas sem estruturas de canções, e salienta o significado do álbum no conjunto do grupo: O Pink Floyd era mestre em texturas, e Meddle é uma das suas grandes viagens a pequenos detalhes, construindo o caminho até ao brilhante Dark Side of the Moon e à era Roger Waters“.

Ed Kelleher da Circus descreveu-o como “outra obra-prima de um grupo magistral“, salientando Fearless como fascinante e elogiando Echoes como “um poema musical que permite aos quatro membros do grupo relaxar os seus músculos“. Contudo, a Melody Maker mostrou-se mais reservada, descrevendo o álbum como “uma banda sonora de um filme não existente“.


Se você nunca ouviu Meddle, faça isso urgentemente. Se já ouviu, te garanto que numa nova audição, depois de ter lido essas humildes, porém atrevidas linhas, você perceberá diferentes nuances na música inexplicavelmente extraterreste do Pink Floyd!

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