Revisando clássicos: Led Zeppelin III

Por Roani Rock

Bem vindos a mais um revisando clássicos, aqui analisamos discos atemporais que, de alguma forma, marcaram a história da música de maneira revolucionária. Traremos uma introdução ao álbum contando fatos que o fizeram importante para a carreira da banda, um faixa-a-faixa e, por fim, citações das principais mídias especializadas em reviews. O álbum de hoje é o marcante Led Zeppelin III.

INTRODUÇÃO AO ÁLBUM

Estamos no ano de 1970, 50 anos atrás. O Led Zeppelin era uma banda que estava crescendo numa ascensão sobrenatural, havia lançado o álbum debut que leva o nome da banda e o Led Zeppelin II, duas obras vigorosas e bem pesadas para fãs baterem cabeça. Era um som que misturava não só distorção ao Blues, mas trazia uma inovação na forma de cantar, com o vocalista Robert Plant explorando áreas bem agudas em canções como Whole Lotta Love e Communication Breakdown.

Além do vocalista, a banda como um todo trazia uma técnica absurda, principalmente se olharmos para a cozinha, baixo e bateria. John Bonham já se destacava nestes trabalhos como um dos melhores bateristas de sua época, e John Paul Jones se mostrava um especialista rítmico, único que se poderia colocar em pé de igualdade a John Entwistle (The Who), um dos entusiastas do projeto e que quase foi o membro oficial. Faltou falar do diferenciado Jimmy Page, que além de ser um reconhecido músico de estúdio, criou o Zeppelin do fragmentado Yardbirds – ele é a alma e o coração do Zep e sua presença é notada em cada riff e solo descomunal.

Fácil fazer uma introdução cheia de adjetivos positivos para os músicos progenitores do álbum aqui examinado, mas falar do Led Zeppelin III é um desafio porque não se trata de um álbum comum e não é apenas mais um na discografia da banda… Não, o III– como dito nas palavras de Page – estava à frente do seu tempo, ou pelo menos do que a mídia e ouvintes acreditavam no que deveria ser o Led Zeppelin na época.

Estávamos tão à frente que era difícil para as pessoas saberem o que diabos estávamos fazendo. Os críticos, especialmente, não entendiam. O Led Zeppelin estava crescendo. Muitos contemporâneos nossos narravam a perspectiva deles, enquanto nós estávamos sendo realmente expansivos. Eu estava amadurecendo como compositor e músico e havia muitos tipos de música que me estimulavam. Com essa incrível banda, eu tive a chance de ser realmente aventureiro.

Jimmy Page em entrevista para o livro ‘Light & Shade: Conversations With Jimmy Page’ de 2012

O Led Zeppelin III era o álbum mais aguardado dos anos 70 e tanta expectativa foi fatal para os fãs. Isto pelo fato do disco ser mais experimental, recheado com baladas e músicas folk, quando o esperado era ter sons mais pesados e mais barulhentos que dos álbuns anteriores. A consequência: as pré-vendas esgotaram de imediato e garantiram o topo das paradas para a banda com álbum de platina. Contudo, após o lançamento, as vendas caíram rapidamente: No total, foram vendidas 6 milhões de cópias, apenas metade da quantidade vendida do álbum anterior.

Essa tempestade de críticas tornou o Led Zeppelin III um pouco azarão no catálogo aparentemente inexpugnável da banda titânica, mas hoje já se nota um comportamento diferente, visto que tem fã que o considera o melhor da discografia. Dá pra dizer que o álbum é um divisor de águas, já que fez um processo de transição para os próximos. As consequências mais negativas do III foram fazer Page parar de dar entrevistas por dois anos e obrigar a banda a fazer uma reclusão e, pegando o sucessor Zeppelin IV (que é incontestavelmente o álbum mais popular da banda) como exemplo, fazê-los trazer um resgate ao som dos dois primeiros para aliviar as tensões. Eles não fariam essa retomada sonora se o III tivesse dado certo.

Em retrospecto, posso me ver como alguém tendo que assistir o lançamento do Led Zeppelin III, que era tão diferente do que tínhamos feito antes. Eles tinham apenas um curto período de tempo para analisá-lo na vitrola do escritório, em seguida, perdendo o conteúdo. Eles estavam com pressa e eles estavam procurando o novo “Whole Lotta Love” e não ouviram que o realmente estava lá. Era muito novo para eles e não conseguiram o enredo. Assim, em retrospecto, não me surpreende que a diversidade e amplitude do que estávamos fazendo era ignorado ou subestimado na época.

Jimmy Page em Maio de 2005

FAIXA-A-FAIXA

Um faixa-a-faixa se torna conveniente, mas não seguiremos a ordem numérica e sim a de importância, não só em termos mercadológicos, mas também para a história da banda.

Immigrant Song

A abertura do álbum, em menos de 20 segundos, traz rock ‘and’ roll e os primeiros lampejos do heavy metal em “yawps” bárbaros, um grito de guerra carnal de Robert Plant. Uma das músicas cuja letra é uma das mais intrigantes por misturar ao rock histórias da mitologia nórdica.

Composta durante uma turnê na Islândia, sua letra é dedicada ao explorador Leif Ericson, e faz explícita referência às conquistas viquingues e a antiga religião dos povos nórdicos (“To fight the horde, singing and crying / Valhalla, I am coming!”). Cantada pela perspectiva dos viquingues remando para o oeste da Escandinávia à procura de novas terras, seu ritmo regular evoca a determinação dos conquistadores e seus remos golpeando a água. O verso “The hammer of the gods will drive our ships to new lands” levou muitos a chamar a canção de Led Zeppelin de “Hammer of the Gods“. A mesma frase acabou usada para dar título à famosa biografia da banda, “Hammer of the Gods: The Led Zeppelin Saga“, de Stephen Davis.

Correntemente usada em filmes como parte da trilha sonora, há o incrível pedido de Jack Black filmado na cena do show de Escola de Rock, onde o ator pede para Led liberar o uso da faixa no filme, com o apoio da plateia emulando o grito de Robert Plant após sua declaração de amor à música e a banda.

Immigrant Song foi o único sinlge do álbum com Hey, Hey, What Can I Do no lado B e chegou ao 16° lugar em solo americano, algo que ocorreu contra a vontade da banda. Ela foi usada para abrir vários concertos do Led Zeppelin entre 1970 e 1972. Versões ao vivo desta canção se encontram nos álbuns How the West Was Won e BBC Sessions.

Since I’ve Been Loving You

O número obrigatório de blues pesado e lento cheio de improvisos. A canção possui 7:23 minutos de duração, foi produzida pela Atlantic Records, a mesma gravadora dos dois primeiros discos da banda, e foi gravada em Maio de 1970 e lançada em Outubro do mesmo ano.

Foi a única faixa do álbum que chegou a ser tocada em concerto pela banda antes do lançamento, mas foi considerada a mais difícil de ser gravada. Robert Plant faz os vocais árduos da música de maneira melancólica, enquanto Jimmy Page toca a guitarra elétrica beirando o sufocamento. Ele confessou ter tido dificuldade de achar não só a timbragem, mas também de chegar ao solo correto pra canção, mas no fim das contas o resultado foi excelente, o engenheiro de som Terry Manning considerou o solo “o melhor solo de guitarra do rock de todos os tempos“. John Paul Jones aqui assume o Órgão Hammond enquanto usa os pedais para a linha do baixo e John Bonham faz o que sabe fazer de melhor, de maneira bruta e técnica. Ela foi gravada ao vivo no estúdio com quase nenhum overdub

That’s The Way

Aqui mostram que se saiam bem, também, em números mais brandos e acústicos. That’s The Way faz parte do lado B do álbum, que é todo voltado a canções folk. Estavam Plant e Page no País de Gales, onde resolveram tirar suas férias das gigantes turnês, e o local escolhido fez crescer neles a vontade de compor canções ao violão. Como apontado em Hammer of the Gods, de Stephen Davis , a letra dessa música refletia a visão de Robert Plant sobre ecologia e meio ambiente, mas há algumas interpretações diferentes. A Rolling Stone, em sua crítica, acreditou que a faixa pudesse estar falando de “uma imagem comovente de dois jovens que não podem mais ser companheiros porque os pais e colegas desaprovam um ao outro por causa do cabelo comprido e por serem geralmente do “lado negro da cidade”.”Não é típico do som do Led Zeppelin, mas a banda estava sempre evoluindo. “Nem tudo foi sangue e trovão”, disse Plant a Dan Rather em 2018. “Havia uma delicadeza nisso também, e muita arte excelente”.

Esta foi a primeira música que o Zepp autorizou para uso em uma trilha sonora de filme. Depois de ver uma versão bruta de Almost Famous , de Cameron Crowe, em 2000, Page e Plant concordaram em deixá-lo usar algumas músicas do Zeppelin nele, mas esta é a única que está na trilha sonora. Dentre as outras está Tangerine, também pertencente ao terceiro álbum.

Tangerine

Mais uma doce canção pertencente ao álbum. Robert Plant às vezes a apresentava nos shows dizendo: “Essa música é para nossas famílias, amigos e pessoas de quem estivemos perto. É uma música de amor em seus estágios mais inocentes.”

Ela tem alguns pontos únicos e interessantes: é uma música que havia sido escrita por Page na época do Yardbirds lá em 68 e foi a última música do Zeppelin que Page escreveu sem nenhuma contribuição de Robert Plant. É também a única faixa do Led Zeppelin III para a qual Plant não escreveu a letra. Esta foi a segunda música da banda com o nome de uma fruta: The Lemon Song foi a primeira. É também a segunda música do Zep a receber o toque de uma guitarra com efeito do pedal steel.

De acordo com Jimmy Page, esta música foi dedicada a Jackie DeShannon , que era sua namorada quando ele a escreveu. DeShannon, membro do Songwriting Hall of Fame, teve sucessos como cantora com What the World Needs Now Is Love e Put a Little Love in Your Heart. Tangerine também chegou a ser gravada em uma das últimas sessões de estúdio do The Yardbirds, sob o título Knowing That I’m Losing You.

Celebration Day

Jimmy Page disse sobre essa música: “Por que ‘Celebration’? Está dizendo ‘Estou feliz!’, isso é tudo.” Talvez uma das canções menos amadas do disco ou do próprio catálogo do Led Zeppelin, ela quase ficou de fora do álbum na masterização final, terminando por entrar de última hora pela vontade de Page, que em entrevista mencionou o quanto foi divertido gravá-la por ter quase três riffs diferentes uma grande mescla de instrumentos acústicos.

Robert Plant diz que a letra dessa música reflete suas impressões sobre a cidade de Nova York. Ele até mesmo a apresentou em concertos, às vezes como “The New York Song“. O Zeppelin tocou Celebration Day em suas turnês de 1971-1973. Uma versão ao vivo aparece no documentário The Song Remains the Same. O nome da canção foi usado para nomear os shows feitos na O2 Arena de Londres da volta do Led Zeppelin em 2007 em homenagem ao executivo musical Ahmet Ertegun, que os ajudou muito durante a carreira.

Bron-yr-Aur

Este é o nome da casa de campo no País de Gales onde Jimmy Page e Robert Plant escreveram muito do Led Zeppelin III em 1970, após uma exaustiva turnê pelos Estados Unidos. A casa não tinha eletricidade nem água corrente, mas a mudança de cenário inspirou muitas músicas do álbum. Todavia, a música não é sobre a casa e sim sobre o cachorro de Robert Plant, Strider. Ele levou o cão com ele para Bron-yr-Aur.

Bron-Yr-Aur significa “peito de ouro” em galês e sua pronuncia é “Bron-rar“. John Bonham ocasionalmente cantava com Robert Plant nessa música ao vivo. Isso pode ser visto nas filmagens de Earl’s Court no DVD How the West Was Won . Outro fato interessante é que o lugar virou ponto turístico de qualquer fã do Zeppelin para desespero do dono atual do chalé, que viu sua residência ser invadida várias vezes.

Out On The Tiles

O baterista John Bonham costumava falar a frase, algo que em português ficaria algo similar a expressão “sair dos trilhos”, ou seja, ir para bares – o título é um termo britânico para sair pela cidade. Jimmy Page escreveu essa música em torno da frase. Bonham ganhou crédito como escritor na faixa, junto com Page e Robert Plant.

Trata-se de uma potente canção, uma das mais brutas do álbum. O refrão é um dos mais divertidos do Zepp: “Tudo que você tem que me dar é todo o seu amor. Oh yeah, oh yeah…“. O início dessa música foi usado como introdução de ” Black Dog ” no CD ao vivo do Led Zeppelin How the West was Won .

Friends

Friends não é bem uma música sobre amizade, e Page a escreveu em um momento de fúria: “E ainda assim você não saberia“, disse ele. “Eu estava inspirado, eu acho, por este sentimento: eu apenas tenho que liberar isso de alguma forma.“. Antevendo essa música para o Melody Maker antes do álbum ser lançado, Jimmy Page comentou sobre os vocais de Robert Plant: “Robert mostra seu grande alcance – incrivelmente alto. Ele tem muitos lados diferentes de sua voz que aparecem aqui.”

Esta foi uma das poucas canções do Led Zeppelin que usavam orquestra. A banda queria um som indiano, mas, ao contrário dos Beatles , eles tocavam os instrumentos em vez de trazer músicos indianos, com arranjo feito pelo baixista John Paul Jones. Ainda assim, em uma viagem à Índia em 1972, Jimmy Page e Robert Plant gravaram uma versão dessa canção com músicos de Bombaim. Esta versão pode ser encontrada em várias gravações bootleg. Mas vamos ficar com a original!

Gallows Pole

Essa é bem angustiante, sua letra fala sobre um homem tentando adiar seu enforcamento até que seus amigos e familiares possam resgatá-lo. Embora existam muitas versões dessa música, a do Led Zeppelin é incomum, pois termina com o carrasco enforcando o protagonista, apesar de todos os seus subornos. A maioria das outras versões termina com o carrasco libertando o protagonista.

Essa música é uma versão baseada em uma antiga canção do Blues chamada Gallis Pole, que foi popularizada por Leadbelly. A música é considerada “tradicional“, o que significa que o autor é desconhecido. Jimmy Page teve a ideia ao ouvir a versão do cantor folk californiano Fred Gerlach. Page explicou ao fazer uma prévia da música para o Melody Maker:

Ele foi uma das primeiras pessoas brancas da gravadora Folkways a se envolver com Leadbelly. Nós a reorganizamos completamente e mudamos o verso. Robert escreveu um conjunto de novas letras. É John Paul Jones no bandolim e no baixo, e estou tocando banjo, seis cordas acústicas, 12 cordas e guitarra elétrica. O cara balançando no poste da forca está dizendo para esperar que seus parentes cheguem. A bateria constrói muito bem.

Hats Off To (Roy) Harper

Uma faixa dedicada a Roy Harper, um cantor folk inglês que Jimmy Page conheceu no Bath Festival em 1970. Ele se tornou amigo de Page e Plant, que o usou como banda de abertura em algumas turnês do Zeppelin. Um fato interessante é que ela nunca foi tocada ao vivo.

Explicando essa faixa para o Melody Maker antes do lançamento do álbum, Jimmy Page disse: “Hats surgiu de uma jam que Robert e eu tivemos uma noite. Há uma fita inteira de nós tocando diferentes coisas de blues. Robert tocava gaita no amplificador, então ele o usou para cantar. Supõe-se que seja um “chapéu” sincero para Roy, porque ele é realmente um cara talentoso, que teve muitos problemas.

O QUE DISSE A MÍDIA?

De uma forma geral, o Led Zeppelin era banalizado pela mídia, a Cream Magazine de Lester Bengs tinha certa aversão a banda e da Rolling Stone, de cada dois elogios vinham cinco críticas, e provavelmente a Melody Maker era a que dava mais jaba. Com o tempo isso foi mudando e dificilmente se encontra uma mídia hoje que não os coloque como divindades no rock ‘and’ roll.

Os temas de amor, dominação e reconciliação e um fio de comunicação entre o passado e o presente permeiam o álbum. O bombástico de “Immigrant Song” nasce do legado dos conquistadores nórdicos. “Gallows Pole”, uma adaptação de uma canção folclórica tradicional, e “Bron-Y-Aur Stomp” pegam emprestado diretamente a herança vernácula galesa. A influência oriental de “Friends” toma seu lugar entre o movimento psicodélico de “paz” da época. “Celebration Day” e “Out on the Tiles” representam o futuro do hard rock da banda (e do mundo). E “Since I’ve Been Loving You” é um vestígio da influência do blues antigo e pesado de Zep.

Consequence Of Sounds 2014

Os Zep, de todas as bandas que sobreviveram, são o hoje – sua música é tão efêmera quanto a Marvel comics e tão vívida quanto um antigo desenho animado em Technicolor. Não desafia a inteligência ou sensibilidade de ninguém, confiando em um impacto visceral paternal que garantirá o estrelato absoluto por muitas luas vindouras. Seus álbuns refinam as ferramentas públicas cruas de todas as bandas de blues branco maçante em algo incrível em sua grosseria muito insensível, como um épico de Cecil B. DeMille. Se eu confio tanto em metáforas visuais e “fílmicas“, é porque elas se aplicam com exatidão.

Lester Bengs, Rolling Stone 1970

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: