Revisando Clássicos: 40 anos de Rita Lee (1980) ou Lança Perfume

Por Roani Rock

“Eu tô ficando velho, cada vez mais doido varrido, Roqueiro brasileiro
Sempre teve cara de bandido, vou botar fogo nesse asilo, respeite minha caducagem, porque essa vida é muito louca e loucura pouca é bobagem”

Orra Meu, Rita Lee 1980

Com esse trecho da canção “Orra Meu” achei pertinente iniciar o texto sobre um dos discos que traz na verdade um mix de estilos musicais que fez de Rita Lee a Musicista, mas que deixa ali marcado como uma cicatriz também sua vertente determinante que é o Rock ‘n’ Roll.

Fim da década de setenta, anuncio do que seria os anos oitenta. Rita Lee tinha conhecido Roberto de Carvalho e essa união foi importante pra Rita entrar de vez na MPB. Eles já tinham lançado o álbum de 1979 que até foi bem e teve o trabalho com o Tuti Frutti que ela até flertava uma coisa aqui e acola, mas foi com esse “Lança Perfume” que foi possível para Rita que chegar sonoramente perto de uma bossa nova como ocorre na faixa “Nem Luxo, nem Lixo“, um dos destaques do álbum.

O disco lançado em 1980 é tratado como um divisor de águas na carreira de Rita Lee, ele certamente é capaz de “deixar de quatro no ato e encher de amor”. É o rock além do rock e extremamente dançante. Tem “Baila Comigo” que é uma balada latina, tem a boba “João Ninguém” que lembra um som mais caribenho, “shangrila” desperta um ar de psicodelia, mas assim como ocorre em “Caso Sério”, se trata de um leve bolero. Já restrito ao rock está “Bem-Me-Quer” e o hino visceral citado anteriormente no início da matéria, “Orra Meu”.

Apesar de parecerem desconexas, as faixas conversam bem e o álbum segue de maneira fluída por ser pop e e seguir as tendências sonoras americanas da época. Apesar de concordar com quem achar melhor escutar as faixas separadamente e pular algumas – o disco não se trata do melhor da Rita, e até devido a sua relevância se sobrepõe a muitos e até a alguns pouco inspirados com a alcunha do Tutti Frutti. Todavia, a crítica especializada da época e até a atual abominam essa guinada para o pop, até acusando Roberto de pasteurizar demais os arranjos e limar as conexões de Rita com o rock. “Loucura pouca é bobagem”.

As letras todas envelheceram bem e conversam com o tempo presente, principalmente a carnavalesca “Lança Perfume” (com andamento chupado integralmente de What A Fool Believes, de The Doobie Brothers). Se Rita já havia desbancado Roberto Carlos com “Mania De Você” em pleno período de Natal de 1980, seu disco seguinte, lançado em setembro do mesmo ano, emplacaria todas as oito faixas nas rádios e memória afetiva dos fãs. Aliás, pode-se falar que 1980 como o ano da “mania de Rita Lee” pela sucessão de hits.

O disco possibilitou também uma subida de patamar na industria dos discos para artistas brasileiros. Ele foi gravado de junho a agosto de 1980 nos estúdios da Sigla e tinha um padrão pop excelente. Entretanto, quando Roberto de Carvalho foi levar os masters para lançamento nos EUA, pela gravadora Pavillion, os técnicos reclamaram da mixagem e de outras questões — o que fez com que, a partir daí, mixar nos Estados Unidos virasse prática usual para Rita e muitos outros artistas brasileiros com alto orçamento.

Claro que o sucesso para o álbum não se restringe a Rita e Roberto que são onúcleo criativo, na hora de botar o som na mesa, uma analogia a mão na massa, eles contaram com uma mega banda capacitada e eficiente. A banda era composta por: o mestre Lincoln Olivetti (piano, sintetizador, bass synth, Minimoog e arranjo de metais), Guto Graça Mello (guitarra e percussão, além da produção do disco), Robson Jorge (guitarra), Jamil Joanes (baixo), Picolé (bateria) e Chico Batera (cowbell, timbales e marimba) além do marido Roberto na guitarra, violão, piano e sintetizador.

Com 800 mil cópias vendidas, o disco chegou aos mercados da América Latina e do Norte e na Europa com extremo sucesso, sendo o resultado mais significante na França ao ficar dois meses na primeira colocação. Foi assim que Rita Lee deixou de vez a pecha de ex-Mutante para ser apenas Rita Lee. E foi assim que ela fez algumas das melhores canções do pop nacional dos últimos 40 anos.

Em seu quadragésimo aniversário, em tempos de pandemia, o disco ganhou como celebração uma live no instagram de uma hora com figuras importantes na carreira de Rita Lee como o jornalista e apresentador Pedro Bial, assim como o cantor Ronnie Von falando de suas experiências com o álbum. Rita e Roberto apareceram ao final falando um pouco sobre o quanto curtiram fazê-lo e o quanto aquele ano de 1980 foi importante para o início de sua relação de namorados encaminhando para o atual e duradouro estado de marido e mulher.

“Rita Lee (1980)” ou “Lança Perfume” certamente está marcado na história não só como o portador de uma coletânea de sucessos da Rita Lee mas também como o amadurecimento do amor. Que seja eterna a apreciação de suas músicas.

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