Review: Festival “One World: Together At Home”

por Roani Rock

O line-up invejável da “live das lives” presta seu dever cívico mas acaba perdendo a premissa de entretenimento para os telespectadores impacientes e tornam o dia 18/04, para quem viu tudo, a sensação de tempo desperdiçado

Roani Rock

O evento foi criado pela ONG Global Citizen em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e com curadoria de Lady Gaga. O festival foi realizado para incentivar que as pessoas fiquem em suas casas, durante o isolamento social por causa da pandemia da Covid-19. Por mais que ela possa ter desempenhado tal papel a organização foi um tanto despreparada.

Não é que tenha sido culpa da curadora Lady Gaga ou dos veículos de comunicação na hora da divulgação do evento. Mas, faltou um diálogo entre eles para saber como passar a mensagem de como seria o processo dos shows e o que mais de importante passaria nas 8hrs do festival para deixar o espectador informado.

O que ocorreu de fato foi um mega documentário valorizando o trabalho feito pelos médicos e servições essenciais, como o de entregador em meio a pandemia do Covid-19 e como a população de cada país (não todos) estava lidando com o isolamento social na quarentena através de música e cultura, para afastar a solidão. Essa parte do festival ficou excelente e explicativa, com momentos até emocionalmente interessantes. Entretanto, intercalando esses momentos, vinha a “live“, a performance de um artista selecionado cantando ou tocando uma música para representar a ideia de união.

A questão maior foi a ordem das atrações, foi desconexa, fora a aleatoriedade de caras como Maluma virem logo depois dos medalhões que são lembrados por fecharem grandes festivais, estes foram tratados como só mais um no evento. Teve uma banda que estava toda reunida e que apertaram as mãos e só depois passaram álcool em gel, esta foi a banda Picture This que cantou ainda coisas desconexas a realidade do evento. Esse descuido com a pré seleção foi determinante para fazer por exemplo brasileiros procurarem outras lives como a do Wesley Safadão ou Alexandre Pires que traziam o que um sábado necessita: agitação e alegria.

O mega documentário positivista trouxe as atividades de super ricaços famosos na quarentena que conseguiam trazer certo conforto ou apreciação do momento, especialistas em saúde mostrando suas caras para trazer alguma luz do que vem sendo feito, políticos mostrando estar preocupados em agir e tomar medidas para acelerar o processo da criação da cura do novo corona vírus (mostrando a fileira de zeros investidos até aqui) e caras como John Legend conseguindo inflar seu ego mostrando seus prêmios e grammy assim como outros que podem esbanjar, mesmo que sem ser proposital, ter um piano de caldas em sua sala de estar.

Tirando esse lado sórdido, em suma, o festival valeu para deixar artistas desconhecidos com mais números nos streamings e curtidas em redes sociais, causar a boa influência. Como teve um número grande de atrações e muitas incluídas aparentemente de última hora, deixou tudo um tanto embaralhado e Taylor Swith com sua música “Soon You’ll Get Better” e Celine Dion cantando “Prayer“, com outras figurinhas carimbadas da máquina do showbis que participaram do evento, ficaram responsáveis por trazer as últimas mensagens de conforto em música. De certa forma, essas escolhas foram falhas com o final da “Live das Lives” ainda parecendo indeterminada pela falta de uma canção forte o suficiente e palavras vindas das interpretes.

Não é porque somos um site de música voltado ao rock que falo isso, mas é a realidade, os artistas que em suma representavam o rock e o soul, que foram secundários no evento se destacaram em pontos positivos: Adam Lambert apesar do visual transgressor trouxe de mais importante sua potente voz com a música “Mad World“, o The Killers trouxeram uma versão diferente de “Mr Brightside“, o chinês Eason Chan tocou a música “Love” de John Lennon, o duo Sofi Tukker que mistura riffs de guitarra a música eletrônica que cantou uma música em português. Delta Goodream e sua música “Together We Are One” foi uma grata surpresa e Jack Johnson trouxe a sutileza com seu violão, era o cara que mais combinava com o evento e só teve espaço pra uma música.

A aparição poderosa de Annie Lennox, primeiro só cantando ao piano o hit “I Saved the World Today” do seu ex-grupo Eurythmics e depois em um dueto com sua filha Lola Lennox cantaram “There Must be an Angel” também da antiga banda de Annie. Fora isso, as outras atrações foram padrões, trazendo um artista de relevância da sua parte do mundo para representar, a Bélgica por exemplo foi simbolizada por Angéle que toca música eletrônica e foi uma boa performance. o Brasil apareceu através de Anitta, mas por algum motivo não claro ela só apresentou o cantor colombiano Juanes.

Na parte principal do festival há outra questão a ser colocada, a curadora do projeto não tocou um hit seu, Lady Gaga preferiu trazer a tona uma versão da música “Smile” composta por Charles Chaplin. Indo na mesma direção, Ben Platt cantou “I Wanna Hold Your Hand” com uma roupagem interessante, Shawm Mendes e Camila Cabello cantaram “What a Wonderful World” de Louis Armstrong, Lizzo cantou o hino da luta contra a segregação racial dos EUA na década de 60 “A Change Is Gonna Comeescrita por Sam Cooke. O que ao meu ver representa a falta de preocupação dos artistas atuais em fazer uma música humanitária com representação forte.

Stevie Wonder, Paul McCartney, Elton John e os Rolling Stones, os artistas que representavam sete décadas de música, apresentaram momentos diferentes de apreciação e um certo entendimento que até para esses grandes a idade e o preço do tempo chegam. Stevie mostrou tranquilidade e sem nenhum esforço cantou “Lean On Me” & “Love’s In Need of Love Today” de Bill Withers que morreu recentemente por problemas cardíacos. É sempre espiritual ouvir o Stevie e essa versão ficou super especial.

Já Paul McCartney tentou trazer uma novidade. Ao invés de cantar “Let It Be” ou uma canção de maior apelo popular, Paul sentado ao órgão trouxe uma versão diferente para “Lady Madonna“, canção que até tem uma letra divertida que pode lincar ao cuidado dos médicos para com os pacientes, pessoas a quem dedicou a música, por esta falar da “Virgem Maria” contando a história dessa mulher pobre que tem que cuidar de muitos filhos. Mas ficou ainda assim com um arranjo esquisito que funciona por ser o Paul tocando, mas ele sem potência de voz deu certa tristeza.

Elton John que veio apresentando problemas de saúde recentemente deu um show a parte, recluso em sua mansão, colocou seu piano do lado de fora da casa em um patio e tocou uma música totalmente conivente ao momento, o seu hit “I’m Still Standing“. Sua voz não estava tão preparada, assim como a do Paul, com ele sem arriscar muito inicialmente as notas altas, mas depois, se soltando, apresentou um desempenho incrível dedicando a música aos médicos.

Abrindo um apêndice, vale falar de Eddie Vedder aqui também, ele trouxe a música “River Cross“, presente no novo lançamento do Pearl Jam, o álbum Gigaton. A música traz uma perspectiva de esperança principalmente pelas falas finais que pedem para quem está ouvindo se erguer, se manter preparado e livre para se soltar, gritar, compartilhando a luz e por fim que há uma união.

Já a melhor parte do evento pode ser dada aos Rolling Stones com uma irreverente performance de “you can’t always get what you want“. Foram anunciados como uma das atrações um dia antes e de certo modo é compreensível o porque. Com essa versão com os instrumentos gravados anteriormente, Mick Jagger, Keith Richards, Ronnie Wood e o maravilhoso Charlie Watts dublaram a música.

Trazendo o espírito que deveria ter sido de boa parte dos participantes desse festival, a banda que já tem anos de estrada trouxe o divertimento necessário. Charlie Watts por exemplo foi quem mais chamou atenção na filmagem, já que ele nem se preocupou em montar um kit de bateria ou percussão para “disfarçar” – apenas reuniu algumas caixas e começou a batucar, seja nelas ou na poltrona ao lado simulando os pratos, no maior estilo “air drums“. Longa vida aos membros dos Stones para que pós quarentena da covid consigam levar ao mundo mais diversão que é o que vamos precisar de agora em diante.

Teve outros destaques como a Jennifer Lopes mostrando ainda ser uma cantora acima da média e Billie Joe Armstrong do Green Day com sua, ao mesmo tempo insuportável mas linda e necessária, “Wake Me Up When September Ends“, mas no geral, é isso, basicamente foi um festival para acalmar a todos, coisa que não conseguiu de forma geral, mas trouxe momentos icônicos, publicidade a rodo, novos nomes para se ouvir nos streamings, certo alívio por ver os ídolos mais velhos bem e certo desapontamento por trazer tão poucas músicas de artistas que se tivesse feito um show de 1 hora ou mais fariam a todos os espectadores do evento mais realizados.

Se era pra representar o mundo, a live das lives falhou, os brasileiros, como bem dito anteriormente, por exemplo, pela falta de representatividade, até na parte das histórias positivas, saiu para curtir outras lives de artistas nacionais que faziam mais jus a um sábado. Mas, se era para ser só a questão da arrecadação, a ONG anunciou que conseguiu US$ 127, 9 milhões após o festival One World: Together At Home. A verba será usada no apoio a profissionais da saúde no combate ao coronavírus, segundo a Global Citizen.

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