Review: Coldplay – Everyday Life

por Roani Rock

Definitivamente um álbum do Coldplay. Ver eles de volta aos moldes clássicos tem que ser celebrado, o desprendimento com fazer um álbum para o mercado foi ótimo pra eles. Everyday Life é o álbum que os órfãos da banda precisavam.

Roani Rock

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Gravadora: Parlophone Records

Data de lançamento: 22/11/2019

Para falar de Everyday Life é necessário fazer uma retrospectiva do que foi o Coldplay na última década. A banda assumiu diversas alcunhas para desempenhar um papel megalomaníaco em obras que buscaram não só ficar populares rendendo números #1 no mundo, agindo de maneira musicalmente comercial de acordo com as tendências, mas também, abrindo um debate sobre o mundo e as crises humanas.

Em 2011, o Coldplay lançou seu quinto álbum de estúdio, Mylo Xyloto que dialoga bastante com o que é o Everyday Life. O álbum, originalmente identificado pela banda como “despojado, com uma coleção mais acústica“, para muitos fãs se trata do último grande trabalho da banda justamente por ainda ter vestígios do que foram e mesmo assim mostrar uma criatividade e bastante vida. Nele se encontram faixas excepcionais como Paradise, Charlie Brown e Hurts Like Heaven.

Em sequência, após três anos sem novidades, Chris Martin e seus companheiros lançaram Ghost Stories que marcaria uma mudança drástica – no pior sentido da palavra – para o Coldplay. Tentando fazer algo mais acústico trouxeram músicas pouco inspiradas que segundo Martin eram para ser continuação do ótimo Mylo Xyloto. Na verdade conseguiram se perder em melodias frágeis e com muita batida eletrônica. credita-se que seja por unanimidade o álbum menos querido dos fãs e da mídia.

Para o disco seguinte resolveram explorar o showbiz e trazer certos nomes para gravarem com eles parcerias que em primeira instância pareciam ser o sinônimo de sucesso. Entretanto, A Head Full Of Dreams não passou de um desgosto para aqueles que seguiam o Coldplay desde os seus primórdios.

Um disco datado com elementos do que vendia no mercado na época e um pouco de inspiração ao pós punk dos anos 80. A presença do baixo bem mais expressiva que nos álbuns que o antecederam, entretanto é o disco menos Coldplay da história da banda. Claro que tiveram alguns hits como Hymn for The Weekend, parceria com Beyoncé (a diva pop das últimas duas décadas), mas o flerte com o hip-hop não era para os menos acostumados e qualidade da banda passou a ser questionada e eles disseram basicamente “supere”.

Chega 2019 e é dado o momento de ter uma retomada ou rebuscar a essência, com Everyday Life existe um mundo próprio, estranho e polido, que o vocalista Chris Martin descreveu como “totalmente cru” e puro. Até agora, o esforço menos imediato ou favorável ao mainstream, o cenário não convencional do álbum muda para vários gêneros e várias direções, o que exige que os ouvintes se entreguem à experiência. 

Afastando-se ainda mais de sua produção padrão, Everyday Life também toma a posição das sua declarações mais politizadas até o momento: condenação a brutalidade policial com Trouble in Town; controle de armamento de fogo na sardônica Guns (que também tem a honra de ser o primeiro som dos caras a apresentar palavrões) e claro, um rosto humanizado e relacionável a crise global de refugiados com a “alegre” Orphans

Apesar de sua arquitetura ampla, o álbum é um dos trabalhos mais consistentes e unificados da banda. A música está cheia de outras vozes: o vocalista nigeriano Tiwa Savage, o falecido cantor de qawwali Amjad Sabri, Alice Coltrane , Scott Hutchison, do Frightened Rabbit , e três gerações de Kutis ( Fela , Femi e Made) são creditadas nas notas principais. 

Interpolando poetas paquistaneses e iranianos, há também as vozes de Femi Kuti , Tiwa Savage e Alice Coltrane e coros da igreja nigeriana, Everyday Life eleva os espíritos em uma escala rítmica e mundana, assim como os sinos da igreja e os cantores do evangelho elevam momentos íntimos como BrokEn e When I Need a Friend

Embora esses momentos sejam intensos e até épicos, eles não dominam completamente o álbum. Temática que vem do fundo do coração são cartas na manga, em todas as diversões musicais do Coldplay unidas pelo presente de ouro de Chris Martin para melodias, há letras quase simplisticamente diretas de cantos emotivos. Um bom exemplo é a estimulante Champion Of The World e a glamourosa faixa Daddy que poderia muito bem ter sido composta para o The Platters ou para o Simple Red graças a sua sutileza remetente aos anos 70 e 80 das love songs ou pro Keane.

A faixa Orphans é uma dessas tentativas de se comunicar com qualquer ser. Tentar trazer a noção que nós poderíamos estar na situação dos refugiados sírios desejando retornar a vida pacata, por exemplo. Seu refrão estridente diz: “Quero saber / quando posso voltar / ficar bêbado com meus amigos.” Na apresentação da banda no Saturday Night, quando as câmeras rolam, Chris Martin instruiu adolescentes da platéia a dançarem de acordo, com abandono.

Engraçado como os álbuns do Coldplay remetem a muitas cores e vida e como Everyday Life como em sua capa que remete a um álbum de música clássica, parece realmente mais esfumaçado e tons cinzas, os temas pesados das canções podem até justificar por si essa impressão, mas creio que tenha a ver com o desprendimento da banda com a o mercado. É aquela velha máxima de não ter mais que provar nada para ninguém. Eles simplesmente podem administrar o que já tem com as boas melodias e sempre podendo utilizar de suas convicções políticas e sociais nas letras.

O disco é especial, se trata de um grande gracejo celebrativo que nos leva a canção que dá nome ao álbum. Tem espaço para todos brilharem, mas realmente Chris deu um bom destaque a vozes como ocorreu no Viva La Vida, em Everyday Life que certamente é o hit de estádio do álbum, há uma orquestração belíssima que lembra a faixa Paradise do Mylo & Xyloto e o fim da música com “aleluia” cantada em forma de mantra traz esperanças não só de um mundo melhor mas também de um Coldplay.

Nota Final: 8/10

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