15 anos da emblemática Ópera Punk American Idiot

Por Roani Rock

Um marco da história da música e talvez o disco mais importante dos anos 2000, American Idiot tornou-se o principal disco do Green Day e o meio de jovens poderem se revoltar com gosto contra o sistema.

Roani Rock

Lançamento: 20 de setembro de 2004

Gravadora: Reprise

Para entender e contextualizar:

  • estamos no ano de 2004;
  • O presidente dos Estados Unidos é George W. Bush;
  • Green Day já havia lançado 6 álbuns e estava a quatro anos sem lançar uma novidade;
  • O grupo Islâmico Al-Qaeda responsável pelo atentado terrorista do 11 de setembro que colocou o prédio World Trade Center abaixo vira um alvo do governo Norte Americano;
  • Em 20 de Março de 2003 os EUA resolvem iniciar uma guerra no Iraque;

Pós contextualização, vamos a como estava situação do Green Day em termos de indústria da música. Eles estão desacreditados mediante público e mídia que via a banda fazendo o feijão com arroz trazendo conceitos do punk sem muito direcionamento quanto a política ou adoração ao uso de drogas e festas. O disco Warning de 2000, teve apenas 2 hits e foi fraco em vendagem.

O primeiro parágrafo do review do Pitchfork colocava o Green Day como um grupo suburbano por natureza. Destaca o single “Longview” de 1994 e seu álbum inovador, Dookie , colocando-o no patamar de ser uma boa mistura precoce de “acordes de poder e prudência inteligente, uma mistura de The Descendents e a faísca Buzzcockian.” 

Eles não tinham respostas – eles só queriam maconha e direitos. Essa postura egoísta e malcriada do beco sem saída, levada até os sugar-pap mallpunks que o Green Day gerou na contrariedade dos anos 90; infelizmente, o inegável talento inicial do trio para o songcraft não o fez.

Pitchfork 2004

Apesar dessa descrença, o ano de 2004 e de 2005 trariam uma virada na carreira da banda, diria até uma guinada com a chegada da obra prima do grupo, o disco que eles taxaram como uma Ópera – PunkRock fazendo alusão as Óperas – Rock que marcaram presença nas épocas anteriores.

O conceito e definição de Ópera-Rock foi criado no final da década de 60 e início da década de 70 por mais de um álbum, mas veio através da fala de apenas um homem. Pete Townshend do The Who criador de duas que foram atemporais que disse que o seu álbum Tommy era uma ópera rock e certamente esse disco atingiu um direto de esquerda no líder do Green Day Billie Joe Armstrong.

Os primeiros álbuns a serem taxados com essa nomenclatura de ópera-rock são S.F. Sorrow da banda de blues The Pretty Things, o Tommy do The Who e correndo um pouco por fora o Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire) do The Kinks. As duas últimas bandas são consideradas as responsáveis diretas pela criação do Punk Rock.

A base da criação de uma ópera – rock é simples, é necessário ter uma ideia e um personagem central para criação de uma trama e depois ir desenvolver a história tendo um início um meio e um fim, tendo melodias que ditam a entonação e percepção do sentimento do que está sendo dito nas letras. Para criar a história de American Idiot, Billie Joe se inspirou em duas obras da década de 60 da broadway e cinema, o filme Jesus Christ Superstar e Amor, Sublime Amor.

Em certos casos se teve a criação de mini-óperas rock que é uma música que conta uma história por inteiro, um bom exemplo é a música A Quick One, While He’s Away do álbum de mesmo nome do The Who e a música Jesus Of Suburbia do American Idiot, álbum que estamos revisitando. O desenvolvimento do álbum foi consideravelmente alterado, e o trio passou a ver canções como mais que apenas isso — como capítulos, movimentos, ou, potencialmente, um filme ou romance.

American Idiot é um projeto audacioso. Segundo Billie Joe no documentário Heart Like A Hand Grenade, que aborda o álbum, eles procuraram criar todas as melodias em estúdio em um processo de competição de melhor composição onde cada membro fazia uma melodia de 30 segundos, ao decorrer do dinamismo iam unindo os pontos de cada, o que viabilizou canções como a já citada Jesus Of Suburbia e Homecoming ultrapassarem os 9 minutos de duração.

Começou a ficar mais sério à medida em que tentávamos superar uns aos outros. Continuamos a conectar esses pedaços de meio minuto até termos algo.

Billie Joe Armstrong

Com o tema e o herói definidos, Grend Day preparou uma história sobre um garoto chamado ST. Jimmy, um jovem de classe operária descrente do mundo, perdido e frustrado que se vê envolto a controversa política de George W. Bush e os efeitos da Guerra do Iraque na sociedade do País.

A imagem que ilustra o álbum foi inspirada em uma peça de propaganda comunista chinesa que os integrantes viram na Melrose Avenue, em Los Angeles. O artista Chris Bilheimer – o mesmo de “Nimrod” e da coletânea “International Superhits!“- também foi buscar inspiração em um verso da música She’s a Rebel: “E ela está segurando meu coração como uma granada de mão“. Para muitos, a capa é reflexo, nas entrelinhas do disco, que criticam o governo voltado a guerras do ex-presidente George W. Bush.

Vide a canção American Idiot que abre o disco, ela funciona como uma introdução e ao mesmo tempo soar como uma falsa alusão aos trabalhos anteriores, como se fosse uma continuidade do que vinha sendo produzido até o Dookie, entretanto, nas músicas seguintes a mudança é mostrada de imediato. Os versos da canção são inesquecíveis: “Não quero ser um idiota americano/Não quero uma nação sob a nova mídia/E você pode ouvir o som da histeria?/A América que fode nossas mentes subliminarmente”. A preocupação em tratar de assuntos relevantes a sociedade com uma veia crítica passaria a ser marca registrada de Billie Joe, Tré Kool e Mike Dirtn.

 O mundo está em um estado confuso. Eu estou puto, estou bravo, e eu sinto que não sou totalmente representado.

Mke Dirtn

Uma das ações de Billie Joe foi viajar para Nova York sozinho por algumas semanas, alugando um pequeno apartamento em East Village, Manhattan par tentar esvaziar a mente e buscar idéias para as canções. Ele passava a maior parte do seu tempo vagando e participando de jam sessions no porão do Hi-Fi, um bar de Manhattan. O cantor passou a socializar com os compositores Ryan Adams e Jesse Malin. Muitas das canções presentes no produto final foram inspiradas pelo tempo em que ele viveu em Manhattan, incluindo Boulevard of Broken Dreams e Are We the Waiting. Enquanto morava lá, Armstrong também formulou grande parte da história do disco, sobre as pessoas “saindo e curtindo à beça, mas, mesmo assim, lutando contra seus demônios“.

Como dito anteriormente a opera-punk conta a história do jovem St Jimmy um punk descrito como o Jesus Suburbano -alterego do vocalista Billie Joe Armstrong. O héroi da trama inspirado em obras como Jesus Christ superstar encontra-se entendiado na inóspita Jingletown e parte em uma jornada rumo a cidade grande (The City). A saga é temperada pela história de amor com a personagem Whatsername, que comete uma espécie de “suicídio metafórico” no final. Segundo os integrantes, o disco “American Idiot” que contém 13 canções, é baseado na complexa dicotomia entre o amor e o ódio.

Há uma teoria de que para canção Jesus Of Suburbia, Billie Joe Armstrong se basou em “Budha Of Suburbia“, grande clássico do teatro/literatura marginal. O fato de ela ser dividida em cinco partes, que são praticamente cinco músicas distintas: “Jesus of Suburbia”, “City Of The Damned”, “I Don’t Care”, “Dearly Beloved” e “Tales Of Another Broken Home”. A música consegue ganhar formas reconhecíveis durante sua execução, no final da história o instrumental cresce e fica totalmente apoteótico, incluindo ai um curioso riff exatamente igual ao de “Ring Of Fire” do saudoso Johnny Cash

Já a faixa Boulivard Of Broken Dreams foi achincalhada ao mesmo tempo que se tornou o maior hit do álbum. Tudo por conta da melodia ser parecida com a música Wonderwall do Oasis fato que não passou despercebido por Noel Gallagher na época.

Boulevard of Broken Dreams tem exatamente a mesma harmonia (que wonderwall). Eles deviam ter a decência de esperar que eu morresse antes de lançar isso. Eu ao menos presto este favor às pessoas de quem roubo(…) Eles se consideram uma banda que detona. Eles não poderiam detonar menos nem mesmo que tentassem.

Noel Gallagher

Outro grande destaque do álbum, a emotiva balada Wake Me Up When September Ends tem uma criação mais íntima do que as de mais canções. Billie Joe Armstrong escreveu a faiza em homenagem a seu pai, músico de jazz que morreu quando o vocalista tinha 10 anos, de câncer no esôfago. No videoclipe com ares de superprodução, a letra da balada ganha outra conotação. Dirigido por Samuel Bayer, e contando com a atriz Evan Rachel Wood, o clipe mostra um casal apaixonado que se separa após o jovem se alistar no exército, para combater na guerra do Iraque.

Homecoming é mais uma faixa dividida em partes. São elas “The Death Of St. Jimmy”, “East 12th St.”, “Nobody Likes You”, “Rock and Roll Girlfriend” e “Homecoming”. Nesta faixa a história vai chegando ao seu final, a história vai se resolvendo. Eles praticamente samplearam o The Police na parte final de Homecoming, a música em questão que tem a passagem peculiarmente parecida com Born In The 50’S soa belíssima e ao fim começa a melancólica Whatsername.

John Roecker, diretor do documentário Heart Like A Hand Grenade , disse sobre o momento:

O ‘American Idiot’ foi gravado na ordem do disco. Essa foi a última música, que uniu tudo. Foi muito emocionante o momento em que ela foi finalizada. Foi tipo, ‘é isso’. Parece quando a escola termina e aí esperamos nos ver durante as férias. Mas você precisa deixar esse bebê ir embora. Você precisa. Não dá pra ser tão ganancioso, e eu me lembro de pensar, ‘okay, agora isso pertence a eles.’ Mas por nove meses, era só a gente.

John Roecker

A ficha técnica também é algo a se destacar já que teve muita gente envolvida no produto final:

  • Composições, Guitarra, vocal principal e Produção: Billie Joe Armstrong
  • Engenheiro assistente: Brian “Dr. Vibb” Vibberts, Dmitar “Dim-E” Krnjaic, Jimmy Hoyson, Joe Browne
  • Engenheiro adicional: Chris Dugan e Reto Peter
  • Engenheiro de mixagem: Chris Lord-Alge
  • Engenheiros de som : Doug McKean Assistant, Greg “Stimie” Burns, Ted Jensen
  • Saxofone: Jason Freese
  • Baixo, backing vocals e produção: Mike Dirnt
  • Piano e Produção: Rob Cavallo
  • Bateria, Produção e backing vocals: Tré Cool
  • As canções foram escritas em parceria por Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool

Interessante pensar que a forma como resolveram fazer o marketing do American Idiot e os trajes usados em shows conseguiram ser repudiados. Na época vinha surgindo o emocore a eles apareceram trajando roupas pretas, com sombras nos olhos e cabelos cuidadosamente desgrenhados. Não demorou para serem acusados de “emo” pelo público e até traidores do “movimento” punk.  Engraçado que o álbum e a forma como se vestiam realmente foram influentes para o movimento emo tanto nos EUA quanto no Brasil por exemplo.

Este álbum não foi aquele em que o Green Day obteve mais vendas, mas pela impulsionada dos hits Boulevard of Broken Dreams e Wake Me Up When September Ends, a história do punk St. Jimmy vendeu 14 milhões de cópias no mundo. Clássico instantâneo, o disco também colecionou prêmios, inspirou um musical na Broadway e ainda vai virar filme, com produção de Tom Hanks. Tomará que aconteça esse filme e o álbum siga sendo cultuado!

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